Deus em nós

Alexandre Augusto Tavares, 4/8/2021

· Espiritualidade ·

Plinio Corrêa de Oliveira

Em seu processo de conversão, Santo Agostinho buscava meios de se sentir mais “próximo” de Deus. Procurava no universo um “lugar” no qual pudesse estar mais unido à divindade. E encontrou! “Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a tua Guia e consegui, porque Tu te fizeste meu auxílio. Tu estavas dentro de mim, e eu fora...”

Encontrou não por sua própria capacidade, mas porque Deus “se deixou conhecer”. Foi sob a Guia (Graça) de Deus que conseguiu, porque Deus “se fez seu auxílio”.

“Achar” Deus é um presente que somente Ele próprio pode nos dar. Mas felizmente Agostinho nos confirmou o “lugar” onde encontrá-Lo: nosso íntimo. Já o Apóstolo São Paulo havia dito que somos “templos do Espírito Santo” (Cor 6,19). E é aí, no mais recôndito do nosso espírito, que Deus se “esconde”, e se revela somente a quem Ele quiser.

A liturgia da missa proclama que “em Deus vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17,18). E assim deduzimos que não é propriamente Deus que vive em nós, mas nós que vivemos n’Ele, pois todo o universo está em Deus, já que nada existe “fora” d’Ele. Então, quando se diz que somos “templos” de Deus, significa que aí (em nosso íntimo) Ele está presente de uma forma mais “ativa”, pois criou em nossa alma este “lugar” para se conectar conosco e interagir. Portanto, Ele se faz tanto mais “presente” em nós quanto mais estiver “agindo”.

Existe, entretanto, um empecilho para esta ação de Deus: a nossa vontade livre. Ou seja, pela nossa vontade não podemos, sozinhos, agir divinamente; mas podemos, sim, atrapalhar a ação de Deus... Isto significa que não somos capazes de ser bons e fazer o bem simplesmente pelo nosso desejo e esforço: necessitamos para isso do auxílio (graça) de Deus. E isto acontece porque somos criaturas falhas, não deuses, mas apenas “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,26).

Tudo o que há de mal em nós é nosso; e tudo o que há de bom é Deus presente em nós. Deus se faz presente em todo o universo em forma de bondade, verdade e beleza. Mas em nenhum lugar esta presença divina pode ser tão ativa quanto nos anjos e nos homens (os únicos seres dotados de vontade consciente no universo), porque fomos “configurados” com essa capacidade especial de nos unirmos a Deus e interagir com Ele.

Permitamos desde já que Deus fale no silêncio de nosso interior, ilumine a nossa inteligência e nos revele os mistérios do seu divino Amor. E assim, quando o nosso espírito experimentar a paz, saibamos que essa paz é Deus em nós. Quando há em nós algum equilíbrio é Ele produzindo esse ajuste. E se ouvimos em nosso íntimo um apelo a dar mais atenção a esta presença divina em nosso coração, é Ele nos movendo a este desejo. E por que recusar? Simplesmente deixemos Ele ir nos dizendo coisas, nos iluminando, nos conduzindo... Não interrompamos essa Ação, não ponhamos obstáculos! Não queiramos assumir o comando nem guiar o Guia! Ele sabe por onde nos levar, Ele conhece o caminho; nós não!

E este é o grande problema da nossa vontade livre: ela gosta de governar, de guiar-se por si mesma, de escolher, de decidir, de fazer... E normalmente erra! Porque semelhança a Deus não é igualdade; ela é falha, é humana, é cega e débil. De fato, o único obstáculo que Deus tem ao governar o universo é o de convencer a nossa vontade (resistente) a não agir por si própria, mas deixar-se guiar por Ele, para o nosso bem. Porque o bem que devemos fazer não está ao nosso alcance. Como dizia o Apóstolo, “não faço o bem que quero, mas o mal que não quero” (Rm 7,19). E assim será, enquanto não deixarmos Deus fazer em nós!

Quanto tempo perdido, tentando fazer o bem por nós mesmos... Mas tudo muda quando reconhecemos que não somos capazes do bem, e permitirmos com docilidade “o amor de Deus ser derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos é dado” (Rm 5,5). Porque somente aí Deus começa a operar maravilhas em nós. Só assim podemos chegar àquela “perfeição do Pai celeste” (Mt 5,48) à qual Jesus nos convidou.

Comecemos, pois, a contemplar e adorar as perfeições divinas em nós: desde o bom funcionamento do nosso corpo e da nossa mente até ─ e principalmente ─ tudo aquilo que somente Deus pode colocar em nós: a verdade, a bondade e a beleza das virtudes e dos dons do Espírito Santo. Encontremos Deus, como Agostinho, em nosso interior, e o adoremos no templo sagrado que existe em nossa alma. Aí mora a Fonte de todo o Bem que em nós possa existir.

A imagem que ilustra este artigo é de Plinio Corrêa de Oliveira, com quem tive o prazer de conviver durante dez anos de minha vida, comprovando a cada contato o heroísmo de suas virtudes. Um homem perfeito, totalmente compenetrado desta presença de Deus em seu templo interior, um constante adorador de Deus e devotíssimo da Virgem Maria. Daí este olhar tão puro e santo, um semblante que reflete nitidamente a verdade, a bondade e a beleza de uma alma divinizada.