Decisões ocultas

Alexandre Augusto Tavares, 29/1/2024

· Geniologia ·

Homem sinistro retirando uma máscara

Frequentemente, atitudes humanas indesejadas, como compulsões, vícios e maus hábitos são alimentadas e impulsionadas por matrizes de comportamento, ligadas a decisões ocultas.

Querer modificar um comportamento impulsionado por uma dessas decisões é quase impossível. É necessário primeiro detectar suas matrizes, buscando o desejo lá na raiz para, só então, alterá-las.

Tais decisões ocultas têm sua origem em eventos do passado, geralmente de caráter traumático. Carências ou imposições abusivas que causaram intenso medo, desejo ou rejeição são situações capazes de criar decisões ocultas que ditarão padrões de comportamento.

Por que ocultas? Porque normalmente não as associamos aos comportamentos indesejados atuais. Talvez o evento negativo original tivesse até sido digerido racionalmente ─ e não de forma subconsciente ─, mas não percebemos que, a partir dali, tomamos decisões radicais que formaram essas matrizes comportamentais.

Um exemplo. No meu tempo de menino, tinham grande espaço no cinema e na televisão os filmes de artes marciais. Bruce Lee foi um grande ídolo na década de 1970 e início dos anos 80. Era então comum ver nas ruas crianças lutando (geralmente à guisa de brincadeira), para exercitarem suas habilidades marciais.

Aos seis anos de idade eu costumava lutar, no recreio da escola, com um menino mais forte do que eu, de quem eu tinha medo de apanhar. Um dia dei nele um chute alto, que o impressionou. Percebi que ele se intimidou e passou a ver em mim uma superioridade. A partir daí o jogo virou: eu perdi o medo dele e comecei a dominá-lo nas lutas.

Mas aquele simples evento me modificou profundamente. E, de forma não tão explícita, eu pensei: “Ah, é assim?! Eu tinha medo dele e passei a dominá-lo por causa de uma atitude ousada?! Quantos outros medos meus podem ser anulados com um chute bem dado?”

E, a partir dali, comecei a ser ousado e destemido. Cheguei muitas vezes a passar da conta, sendo arrogante, impositivo, controlador e exibicionista. Mas para um menino que sofrera muitas imposições de pessoas mais fortes, superar aquele medo era como sair de uma gaiola e voar livremente.

No futuro essa liberdade me custaria dificuldades de relacionamento, das quais eu não me livraria enquanto não as associasse àquela decisão oculta que tomei ao dar um chute no meu amiguinho, aos seis anos.

O exemplo acima está relacionado a uma atitude defensiva, que na genioterapia chamamos de blindagem. Outras vezes é a carência que provocará matrizes comportamentais. Como quando uma criança vê seus pais passarem, durante anos, grande necessidade financeira, a ponto de terem dificuldade para se alimentar ou comprar itens básicos para o lar. Essa criança poderá ter, no futuro, uma tendência a ser gananciosa, a comprar compulsivamente, a não conseguir economizar, etc.

Imaginemos ainda uma menina que é mimada e super protegida pelos pais: ela provavelmente se considerará importante, digna de todo amor e atenção, como uma deusa a quem todos devem prestar culto. Isso lhe causará grandes problemas na vida, pois lhe custará lidar com o esforço, o desprezo, a sensação de abandono ou simplesmente a indiferença de outrem no relacionamento.

O mais curioso é que esta mesma matriz negativa de comportamento pode ser gerada tanto por eventos de superproteção (como neste último exemplo), quanto por eventos opostos, de desprezo ou abandono. Aí entram em jogo os movimentos de desejo ou repulsa da vontade humana, segundo suas inclinações e experiências individuais.

O fato é que matrizes de comportamento inadequado, causadas por experiências de vida (positivas ou negativas), equivalem a decisões entranhadas, contra as quais é quase inútil fazer oposição. A nossa mente as tem como padrão básico e instintivo de reação diante de eventos semelhantes àquele que as originou.

Para mudar esses padrões é, pois, necessário detectar o evento matriz e entender o mecanismo que originou a decisão oculta relacionada, trazendo-o à tona, desmascarando-o, tornando-o explícito e descritível. E então, uma vez exposto, podemos começar conscientemente uma batalha capaz de gerar e sobrepor um novo padrão. Essa explicitação tornará a luta mais justa e eficaz, a favor da mudança.