Criar ou não criar?

Alexandre Augusto Tavares, 23/4/2021

· Teologia ·

Deus criando o mundo

Criar o universo não era para Deus – pelo menos teoricamente – uma necessidade, e sim uma opção. Contudo, havia, na prática, uma “necessidade”, porque criar seria manifestar sua eterna bondade, oferecendo aos seres inteligentes uma participação na sua felicidade celeste. E como esse ato de generosidade é mais perfeito do que sua omissão, a criação é uma como que “opção necessária” para o Deus Perfeição.

Ora, ao “decidir” criar, Deus jamais criaria um universo que não refletisse sua divina Perfeição, porque seria contraditório. Portanto, a criação deveria ser diversificada e hierárquica: criar seres iguais ou repetidos seria uma aberração, pois Deus não é “gago”.

Por isso, não exite no universo sequer uma folha de árvore igual à outra, nem dois grãos de areia idênticos, ou sequer uma estrela repetida. E uma vez diferentes, cada criatura tem um nível distinto (hierarquia) de perfeição e semelhança com Deus.

O ser mais elevado e semelhante a Ele é Jesus. Tão semelhante que se “confunde” com Ele, está “incorporado” a Ele, a ponto de ser Deus, sem deixar de ser criatura.

Existe, pois, em Jesus, o Homem-Deus, duas naturezas: a humana e a divina. Cristo é o Filho Unigênito de Deus, o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, o Verbo de Deus encarnado, o Ápice e Modelo da criação. E é em função deste Modelo perfeitíssimo e divino que Deus cria todo o “resto” do universo.

Nós, homens, somos criados “à imagem e semelhança de Deus”; Jesus, porém, “é a própria imagem e semelhança de Deus”.

Ao “idealizar” Cristo em sua divina sabedoria (desde toda a eternidade), Deus O “desenhou” com inteligência e vontade independentes, ou seja, livres, autônomas, capazes de agir por si próprias, sem a “interferência” do Criador, o que chamamos de livre-arbítrio. E isto é o que caracteriza a semelhança entre o Homem e o Deus. E é, ao mesmo tempo, o “canal” que permite a conexão hipostática (união misteriosa) entre ambos.

Embora exclusivo e ímpar, Cristo não deveria ser o único homem: Ele é o Modelo da humanidade. Ele é pura “imagem de Deus”; nós somos “à imagem de Cristo”. Cada ser humano é único, semelhante a Cristo, mas com características próprias e sem repetição.

Assim como a liberdade da inteligência e da vontade é o que mais torna Jesus imagem de Deus, também é isto que mais nos torna semelhantes ao Homem-Deus. Só semelhantes não: também dissemelhantes! E a isto se liga o caráter “opcional” da criação. Pois ao criar seres “livres” (homens e anjos), Deus levou sua divina “ousadia” ao extremo, uma vez que essa liberdade poderia se voltar contra Ele próprio. Inevitável...

Em vez de usar nossa liberdade para reconhecer a bondade de Deus, adorá-Lo como Criador e nos conectarmos a Ele para participar de sua vida divina, usamos nossa independência para viver sem Deus, na torpe ilusão de que nossa semelhança com Ele nos torna “deuses” autossuficientes.

Assim foi com Lúcifer, que em seu orgulho se recusou a servir a Deus; assim foi com Eva, que quis ter o conhecimento divino; assim é conosco, quando, neste tempo de prova que é a vida terrena, vivemos sem Deus...

Eis o motivo da existência do mal: a falta de reconhecimento, o desamor e a desconexão dos seres inteligentes em relação a Deus. Eis também a razão pela qual a criação era uma “opção” talvez não adequada: a possibilidade dessa revolta das vontades inteligentes autônomas.

Mas, felizmente, a conveniência e a “necessidade” da criação superaram o perigo e a maldade do livre-arbítrio. E assim, na “matemática” divina compensou criar: no caso dos anjos, dois terços foram fiéis; e quanto a nós, homens, o cômputo ainda não está completo… Talvez seja publicado somente no dia do Juízo Final.

O fato é que estou eu aqui escrevendo, você aí lendo, e a nós, que estamos ainda no tempo de prova, resta a terrível e importantíssima escolha de viver com ou sem Deus, imitando ou a Cristo ou aos revoltados.

Ó divino Jesus, que o exemplo da vossa sagrada vida, maravilhosamente registrada no santo Evangelho, seja para mim o único modelo, empenho e caminho! Pois Vós sois “o caminho, a verdade e a vida”!