Contradições coerentes de um caos harmônico

Alexandre Augusto Tavares, 11/3/2024

· Fábula ·

Triângulo 3D impossível

Meu avô, irmão mais novo do meu caçula, contava-me uma história real, que era sua fábula predileta.

Havia numa cidade interiorana um lindo garoto, de pé sob um sol escaldante. Um tanto velho e enrugado, cansado da sua tenra juventude, aproveitava a sombra fresca de um imenso carvalho, deitado sobre a grama.

Contemplando as ondas do mar naquela praia deserta, observava também o vai e vem das pessoas que, ao passarem, cumprimentavam-lhe pelo nome, pois ninguém o conhecia.

E foi nessa noite estrelada que ele viu um dos mais lindos ocasos de sua longa vida.

Mas, de repente, começou a chover torrencialmente, o que ressaltava o azul daquele céu maravilhoso, totalmente desanuviado.

Chegaram, então, sua esposa e seus três filhos, para comemorar seu aniversário de sete anos. Era 6 de abril, o primeiro dia do mês, numa sexta-feira do início de uma semana conturbada.

Mal acenderam as velas, a tempestade parou e, já perto da meia-noite, o sol a pino continuava despejando aos baldes um calor insuportável.

Mas tão cansado encontrava-se o menino que, durante o canto do parabéns, caiu num sono tão profundo, que teve um pesadelo e despertou angustiado, pois no sonho se via extremamente feliz, comemorando o fato de ter ganhado na loteria, mesmo nunca tendo jogado.

Então se deu conta de que tudo aquilo era a apenas nada, mas um nada que para ele era efetivamente tudo. Fazia todo sentido, uma vez que suas dúvidas cresciam a cada instante, conforme tudo ia ficando mais claro.

E assim, triste e acabrunhado de tanta felicidade, comemorou euforicamente tudo o que não tinha acontecido, porque o grande motivo de sua alegria era exatamente a insatisfação que sentia em seu coração exultante.

Por fim, para concluir esse conto que ─ como disse meu avô ─ é uma história real, aquele jovenzinho, órfão e sem parentes, faleceu aos 98 anos, assistido por toda a sua família, que muito o amava. E assim, ele morreu feliz para sempre, por nunca ter vivido e sequer existido.

Pessoalmente, sempre achei esse conto meio esquisito, sem pé nem cabeça. Mas agora, refletindo melhor, percebo claramente sua coerência e harmonia. Mas prefiro não me lembrar dele, para não acabar ficando louco, pois mesmo lógico e fazendo todo sentido, é caótico e contraditório.