Católico 100 por cento

Alexandre Augusto Tavares, 9/6/2022

· Espiritualidade ·

Cristo do Apocalipse, com uma espada na boca

Ser sério e radical hoje em dia tem uma conotação de terrorismo islâmico, de idealismo empedernido e obsoleto, de nazismo, fascismo e demais “ismos”. O “descolado” é ser relativista, ecumênico, eclético, liberal.

Mas se voltamos o olhar para nosso Modelo perfeito, o Homem-Deus, o que vemos? Alguém “descolado”? Ou: a divina Seriedade encarnada? Uma das imagens mais impressionantes de Jesus o representa como o Cristo gladífero, na descrição do Apóstolo João:

“Segurava na mão direita sete estrelas. De sua boca saía uma espada afiada, de dois gumes. O seu rosto se assemelhava ao sol, quando brilha com toda a força.” (Ap 1, 16) “Vi aparecer então um cavalo branco. O seu cavaleiro tinha um arco; foi-lhe dada uma coroa e ele partiu como vencedor para tornar a vencer.” (Ap 6, 2)

Este é o Jesus que discutia enfaticamente com os doutores da Lei, com os fariseus e saduceus, que expulsou os vendilhões do Templo, que no Horto derrubou os soldados romanos apenas dizendo “sou Eu” (Jo 18, 6), que enfrentou voluntariamente as dores da Paixão, capazes de matar diversas vezes muitos Hércules e Sansãos. Cristo é radical, a Intransigência divina encarnada. Na verdade, ninguém na História levou a tal extremo a radicalidade, ensinando-nos que “o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam” (Mt 11, 12).

Vamos aplicar a nós, sem covardia? Diante de Deus, quanto por cento somos católicos radicais? Ou seja, quanto por cento imitamos o nosso Modelo? 100%? 80%, 60%, 30%? Menos? Ser sério e intransigente nos assusta?

É verdade que existe um entrave para nos entregarmos por completo. Talvez mais psicológico do que real. Acontece que normalmente, em tudo o que fazemos, é mais fácil chegar aos 90%, do que, a partir daí, alcançar os 100%. Porque o 100 é “tudo”, é o completo, o perfeito; e o ser humano decaído pelo pecado Original não gosta de chegar aos extremos de nada, principalmente da perfeição. Porque atingir os 100% é chegar à aniquilação do amor-próprio, é aceitar um martírio em que nosso ser se diviniza; uma diluição completa, não sobra nada de nós mesmos.

Chegar ao bonzinho, ao bonitinho, ao arrumadinho, até suportamos; mas à perfeição dos 100%... é muito radical, exige extremo esforço, cansa, machuca, sufoca!

Há, sim, gente que se empenha e se estressa para chegar aos 100%, mas com objetivos egoístas: ganhar dinheiro, prestígio, influência... Ser radical na busca da perfeição, por amor a Deus, é raro. “Isso é coisa daqueles doidos, chamados santos.”

Uma vez contratei um pedreiro para rebocar uma parede. Em certo momento ele me disse: “Pronto, já alisei bastante essa parede; agora, o resto, a gente alisa na tinta.” Mentira, não alisa! É na massa que se alisa! Mas para isso é preciso chegar àqueles 100%, dos quais fugimos instintivamente.

É lamentável que, no geral, o povo brasileiro tenha se habituado a ser mestre de obras inacabadas ou “quase perfeitas”. Quando algo se aproxima do excelente, ele para e diz: “Ah, já tá bom, né?” O nosso “jeitinho” é, frequentemente, uma estratégia malandra de fuga da perfeição, uma soluçãozinha preguiçosa, meia-boca, defeituosa, medíocre, imperfeita!

Aplicada essa preguiça à religiosidade, temos os “católicos não praticantes”. Ouvi certa vez um comentário muito adequado a esse respeito: “Católico não praticante é como honesto não praticante.” Verdade! Ser católico “bonzinho” (30%, 40%, 60%) é ser católico não praticante ou semipraticante, é tentar ser honesto não praticante...

No já citado Apocalipse encontramos uma severa repulsa da justiça divina à mediocridade: “Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te.” (Ap 3, 15-16)

Fujamos, pois, não de buscar os 100%, mas de sermos católicos tíbios, mornos, medíocres, medianos, relativistas, liberais! Que horrível, ao morrermos, sermos vomitados para o Inferno...