Brasileiros brancos versus peixes negros
Alexandre Augusto Tavares, 2/11/2015 - Revista Por Ali, nº 3
· Crônica ·
O Peru é um dos países mais fascinantes da América do Sul. Quem sai da capital Lima rumo ao norte, beirando a orla do Pacífico, vai encontrar uma série de maravilhas pelo caminho. Em pouco tempo entra-se num deserto cinematográfico: dunas espetaculares com areias de diversas tonalidades.
Em menos de seis horas chega-se uma cidadezinha balneária chamada Tortugas, cujo nome vem da montanha em forma de tartaruga que fica do outro lado da baía. Aquele foi o cenário da primeira parada do grupo de amigos com quem eu viajava. Ali dormimos e, no dia seguinte, acordamos cedo. Como a viagem continuaria somente à tarde, convidei um dos meus amigos para cruzar a baia a nado. Ele corajosamente aceitou. Pelos nossos cálculos, dava para ir e voltar em três horas.
Não foi nada fácil entrar naquela água com temperatura próxima de zero grau... Mas lá foram os dois malucos. Como previsto, depois de uns 45 min parecíamos estar na metade do caminho, e já não avistávamos as margens de ambos os lados.
Neste momento aconteceu algo que nos deixou perto da morte. Dois peixes enormes, um de uns 3 metros, e outro de uns 2,5m vieram saltando em nossa direção. Eram negros, com a barriga branca. Ficamos pasmos, um olhando para o outro, sem palavras. A única coisa que pudemos concluir era que não se tratava de golfinhos nem de orcas. Sentíamo-nos tão pequeninos naquele oceano, sem ver a praia... alvos fáceis e indefesos daqueles monstros marinhos... só nos restava clamar piedade ao Céus. E foi o que fizemos.
Quando chegaram a cinco metros de nós, afundaram e não voltaram à tona. Não os víamos. Estávamos extremamente tensos. Encolhemos as pernas e ficamos na expectativa de sermos abocanhados a qualquer momento. Um certo alívio quando notamos que eles passaram por baixo de nós e saíram do outro lado. Mas... depois de uns 50 metros, fizeram meia volta e, de novo, vieram em nossa direção. A mesma cena se repetiu: chegaram bem próximos, passaram por baixo de nós e saíram do outro lado. Mais um alívio...
Neste momento, para piorar a situação, o meu amigo anunciou que estava com cãibra. Logo os peixões retomaram o ritual, vindo uma terceira vez em nossa direção. Meu amigo, que já não conseguia dobrar uma perna, começou a ter cãibra na outra também. Mas desta vez, depois de passarem por baixo de nós, os peixes foram se afastando e, felizmente, não voltaram.
Recompor-se psicologicamente não foi tão fácil, mas o mais difícil era calcular como chegaríamos ao outro lado. Não pensávamos em voltar, porque na direção que estávamos nadando havia uns barquinhos antes da orla, onde pretendíamos nos refugiar. E não havendo outra saída, fui nadando com as pernas e um braço, empurrando com o outro o meu amigo, que estava boiando estirado, quase petrificado. Demorou mais de meia hora para chegarmos ao barquinho mais próximo. Com muito esforço subimos, e ali ficamos mais uma meia hora, comemorando a sobrevivência. Meu amigo não queria sair dali, e eu não consegui convencê-lo de que precisávamos continuar até o outro lado. Então, joguei-o na água e continuei a rebocá-lo até a outra margem onde, por fim, chegamos.
Havia ali uns pescadores nativos, recém-chegados. Eles tinham percebido que viemos do barco, mas se recusaram a acreditar que viemos nadando desde a margem oposta. Perguntaram de onde éramos, e se surpreenderam muito quando dissemos ser brasileiros. Exclamaram: “Mas... brasileiros, brancos?!” Depois de elucidarmos este detalhe, perguntamos sobre aqueles peixes enormes. Eles disseram que se chamam chanchos marinos (porcos marinhos), e que os pescadores batem neles para espantá-los quando tentam roubar os peixes de suas redes. São brincalhões e inofensivos. Menos mal!
Já estava tarde. Voltar nadando estava fora de cogitação. Começamos a andar, contornando a baía. O quanto estava fria a água, estava quente a areia, torrada pelo sol, impedindo que andássemos sobre ela sem queimar os pés. Mas não tínhamos outra opção... Havia pelo caminho umas casas de teto baixo, cujas lajes não eram tão quentes quanto a areia fina. Então, sempre que havia algumas em nosso caminho, subíamos e saltávamos de teto em teto, como gatos.
Providencialmente, pela metade do caminho encontramos um homem com um jipe e pedimos carona. Foi a nossa salvação!