As potências da alma
Alexandre Augusto Tavares, 2/10/2015- Revista Por Ali, nº 2
Revisado e aumentado em 8/10/23
· Filosofia ·
Três são as potências da alma: inteligência, vontade e sensibilidade. Numa pessoa ordenada, a inteligência guia a vontade, e esta rege a sensibilidade.
Inteligência ─ A potência da Inteligência não se refere exclusivamente à capacidade de entender, mas a toda atividade intelectual, como o analisar, o distinguir, o comparar, o pensar, o refletir, o meditar, o raciocinar, o intuir, entender e o concluir. Fazem parte da inteligência a consciência, o bom senso, o senso ético e moral, e o senso comum, que nos permitem distinguir entre bem e mal, verdadeiro e falso, belo e feio, lícito ou não.
A inteligência está ligada, no corpo, ao sistema neural.
Vontade ─ Na vontade está a capacidade de desejar ou não, querer ou não, amar ou odiar, decidir ou não, aderir ou rejeitar. A vontade é a rainha das potências: ela é quem determina quem somos, pois nossas decisões ditam nosso caráter e nosso comportamento. Somos o que queremos, somos o que amamos! Estão também acoplados à nossa vontade os instintos, que são uma espécie de segunda vontade, programada por Deus para ditar-nos alguns comportamentos. Dentre eles, o instinto de conservação (que nos faz fugir ou atacar para sobreviver), o instinto de procriação (que garante a perpetuação da espécie), o instinto materno (que faz uma mãe amar seus filhos a ponto de protegê-los e conservar-lhes a vida), o instinto de sociabilidade (que nos agrega para nos fortalecermos e ajudarmos mutuamente).
Sensibilidade ─ A sensibilidade é o elo mais forte entre o corpo e a alma. Nela são registrados e memorizados todos os sentimentos, emoções e experiências.
As potências estão intimamente atreladas ao nosso corpo, que permuta informações com a alma através dos cinco sentidos corpóreos. Assim, nada chega à nossa alma que não tenha passado pelos sentidos. O ver e o ouvir estão mais ligados à inteligência, ao passo que o cheirar, o comer e o sentir estão mais ligados à sensibilidade. E a vontade como que aguarda a análise da inteligência e a intuição do sentir para decidir e dar seu parecer. E tudo isso pode acontecer em frações de segundos.
Como vimos acima, o amor ─ ao contrário do que muitos pensam ─ não está na sensibilidade, mas na vontade. Amar não é “sentir”, mas “querer”. Por isso, o amor a Deus consiste em querer, aderir e fazer o bem, mesmo que a sensibilidade “não esteja disposta” a sentir o amor.
Daqui deduzimos que o ser humano não deve pautar sua conduta pelo que sente (como fazem os animais), mas sim pelo que sua inteligência, iluminada pela fé, lhe indica.
Ora, as desordens introduzidas na alma humana como consequência do Pecado Original provocam uma divergência entre os desejos sensíveis e a vontade guiada pela razão: “Sinto nos meus membros outra lei, que combate contra a lei da minha razão.” (Rom 7, 35)
O poder de decisão está na vontade. A inteligência poderá argumentar contra ela, e a sensibilidade tentará seduzi-la, mas quem decide é ela, a vontade, seja para o bem ou para o mal.
Quando se come algo saboroso numa quantidade suficiente, a reta inteligência dirá “basta”, mas a sensibilidade tendenciosa, impelida pelo sentido do paladar, poderá dizer “quero mais”. Então caberá à soberana vontade deliberar.
Assim, a luta da alma que quer viver segundo a razão, consiste em dominar sua vontade e subjugar a sensibilidade quando esta deseja o mal. E isto só se consegue através da graça de Deus, que atua sobre a inteligência para que esta guie a vontade, e sobre a vontade para que esta domine a sensibilidade. E para que tudo isto ocorra, é necessário pedir a Deus sua intervenção.