As palavras dos pequeninos
Alexandre Augusto Tavares, 2/12/2015 - Revista Por Ali, nº 4
· Crônica ·
“Deixai virem a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham.” (Mt 19,14) A alegria pura e inocente da criança é aqui exaltada por Jesus, e apresentada como modelo para os adultos. Porque à medida que nos tornamos adultos, envolvemo-nos de certa complexidade e deixamos aquela simplicidade e candura pueril.
Mas as atitudes e as palavras das crianças, livres de qualquer malícia, são para nós um convite a uma vida cheia de confiança no Senhor, alimentada por um amor incondicional a nosso bom Pai.
Na Espanha, país dos exageros sensatos, um provérbio popular assim ressalta a sabedoria da criança: “Los niños, los viejos y los locos siempre dicen la verdad” (As crianças, os velhos e os loucos dizem sempre a verdade). De fato, é incrível como as palavras de uma criança podem descrever o universo interior ─ real ou fictício ─ pintado por sua imaginação. Para ilustrar este pensamento, transcrevo a seguir algumas frases de meus filhos, todas elas ditas na idade entre três e cinco anos.
[João:]
─ Pai, posso ficar aqui, vendo você trabalhar?
[Eu:]
─ Pode, mas sem perguntar nada, tá?
[João:]
─ Tá!
Passam-se 5 segundos.
[João:]
─ Pai, por que não posso perguntar?
Minha esposa pede para eu ir escovar os dentes do João. No toilette notei que havia duas escovas pequenas. [Eu:]
─ João, qual é a sua escova?
[João:]
─ Esta amarela.
[Eu:]
─ E esta branca é de quem?
[João:]
─ Minha também! Eu uso ela quando tô com frio... [E explicou que a amarela representa o sol, o calor; enquanto que a branca representa a neve, o frio.]
Um dia chegamos a um belvedere em Ilhabela, bem no final da tarde. Sophia olhou para o horizonte e, encantada, disse:
─ Mãe! Olha o sol se fondo...!
[Matheus:]
─ Pai, esta noite eu sonhei que caí em algum rio... Não sei se era o Rio de Janeiro...
Enquanto esperávamos sentados o início de uma missa, vem pelo corredor, em nossa direção, um senhor com uma barriga bem proeminente. Ao passar onde estávamos, parou e fez um gracejo para nossa filha Sophia. A pequena então lhe perguntou:
─ O que você tem aí dentro [da barriga]?
Meio desconcertado, mas num tom de brincadeira, o homem responde:
─ Eu engoli uma bola!
[Sophia:]
─ Então, por que você não tira ela daí?!
No dia das crianças fomos a uma festa paroquial. Eu estava cuidando do Joãozinho. Cinco segundos após eu ter me distraído, notei que ele estava bem na frente de uma senhora cadeirante, de quem havia sido amputado um pé. João olha para o pé da senhora, olha para mim que estava chegando e ─ antes de eu tirá-lo dali em regime de urgência ─, diz espantado, bem na frente da senhora:
─ Pai! Tem um sim e um não!
Matheus estava comendo pipoca em uma caneca. Em certo momento, em vez de pegar com a mão, virou a caneca na boca, como se estivesse tomando um líquido. Então, brincando, comentei:
─ Matheus, pipoca não é de beber!
Para reforçar meu comentário, Sophia acrescentou:
─ Não é de “bebê”, Matheus; é de criança!
Estava eu lendo um texto muito confuso, e comentei com minha esposa:
─ Nossa, este texto está todo rebuscado!
Ouvindo isto, Sophia ─ que não sabia distinguir “rebuscado” de “rabiscado” ─ foi logo se desculpando:
─ Não fui eu! Acho que foi o Matheus...
Ao chegar na casa de sua madrinha, Sophia olhou para o alto de uma parede e comentou:
─ Olha! A tia Ilda tem um relógio igual ao nosso: vai até o 12!