Amor não amado
Alexandre Augusto Tavares, 19/1/2021
· Espiritualidade ·
O amor é esse movimento da alma que se derrama no amado, despejando nele suas esperanças, seus sentimentos e, sobretudo, o seu querer: amar é querer bem.
Há, entretanto, dois tipos de amor. Um deles ama por interesse, pela satisfação que lhe dá a presença do amado. É amor falso, egoísta, interesseiro, que se aproveita do amado e se compraz nele por amor a si mesmo; é amar-se no amado. O outro tipo de amor é desinteressado, está disposto a se sacrificar pelo amado, pois o ama simplesmente porque lhe quer o bem, independente do prazer que ele proporcione. É um amor autêntico, verdadeiro, altruísta e generoso.
Deste último amor temos uma linda manifestação no poema atribuído a Santa Teresa de Ávila:
“Não me move, Senhor, para te querer, o Céu que me prometeste, nem o Inferno para te temer: Tu me moves, Senhor. (...) Move-me o teu amor, porque ainda que não houvesse Céu, eu te amaria, e ainda que não houvesse Inferno, eu te temeria.”
Muito diferente daquele amor efêmero, que some com a mesma velocidade e intensidade que chega, travestindo-se facilmente em aversão, ódio e vingança quando contrariado ou traído, este amor puro e verdadeiro é uma participação do amor de Deus. Amor de Deus para conosco, amor nosso para com Ele e para com suas criaturas. Mistério tão sublime é esse amor divino que, quando o compreendemos, passamos a viver como em “outra dimensão”.
Conseguir de alguma forma enxergar, contemplar e corresponder a esse amor, produz em nós uma metamorfose, uma metanoia, uma mudança de pensamento e de caráter, uma transformação espiritual. Mas, infelizmente, esse amor é raramente entendido e correspondido.
Quem, pelo menos durante um período da sua vida, amou sem ser amado, desejou estar junto de quem amava, sem encontrar correspondência daquele amor, tem mais facilidade para compreender esse afeto de Deus para conosco, guardadas as infinitas proporções: por mais que correspondamos a Ele, sempre O amaremos insondavelmente menos do que Ele nos ama.
Isto fica evidente na Paixão de Cristo, à qual Ele voluntariamente se submeteu por nosso amor, sem correspondência da nossa parte: “Eis aqui o coração que tanto amou os homens, até se esgotar e consumir para testemunhar-lhe seu amor e, em troca, não recebe da maior parte senão ingratidões, friezas e desprezos.” (Santa Margarida Alacoque)
Grande obstáculo à compreensão do amor de Deus é a mediocridade da nossa fé e espiritualidade. Somos tendentes a buscar ansiosamente, nesta terra, aqueles prazeres físicos que nos estão reservado plenamente só após a nossa prova. Vivemos atrás de satisfações materiais: bem-estar, saúde, estabilidade profissional e financeira, etc.
E assim rejeitamos aquela promessa de Jesus, que traria tanto alívio em nossa vida: “Buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo.” (Mt 6,33) Preferimos viver inutilmente em busca do “acréscimo”, do “tudo o mais”, e impedimos o reinar de Deus em nosso coração e a justificação daí decorrente.
Talvez a aparente invisibilidade de Deus dificulte considerarmos sua presença em nossa vida. A incredulidade é altamente prejudicial à compreensão do amor de Deus para conosco. É por isso a Igreja sempre ressaltou a importância de considerarmos a Paixão de Cristo: pois aí vemos o Homem-Deus, a personificação visível do Deus invisível, imolando-se desinteressadamente por nós, demonstrando seu amor divinamente exagerado por cada um de nós, para nos redimir e reabrir o acesso à felicidade eterna.
Olhemos sem medo para esse divino amor e deixemo-nos envolver por ele. Permitamos que a fé encurte os dois milênios que nos separam do Salvador, e O traga para o nosso hoje, o nosso agora, de forma que O vejamos presente não apenas na Eucaristia, mas aqui, em nosso coração, tão real quanto nos dias em que seus divinos pés caminhavam pela Palestina. Abramos nossos olhos e nosso coração para esta realidade da presença de Deus em nosso “templo interior” (1Cor 6,19).
E então começaremos a compreender a providencialidade de Deus em nossa vida. Começaremos a ver que, de fato, Ele sempre esteve presente, mesmo quando nos parecia estarmos “sozinhos”, “desamparados”, quando permitiu que tropeçássemos e caíssemos, que provássemos a nossa impotência, a nossa miséria e imperfeição, para que tivéssemos a certeza da nossa nulidade; mas que com Ele, “tudo podemos” (Fl 4,13).
Penetremos no mistério do amor desse Deus que nos permite provar tantos insucessos para que vejamos que só Ele importa e nos basta. Encaremos essa realidade de que nosso sucesso, bem como a realização de tantos planos ilusórios que tínhamos seria a nossa ruína! E que desse desastre nos livrou o amor da Providência divina.
Sim, o Amor sempre esteve presente em nossa vida, nos guiando, nos amparando, nos conduzindo discretamente por caminhos que, embora para nós tortuosos e obscuros, foram indispensáveis para chegarmos àquele momento precioso em que, finalmente, nos encontramos com Ele sem véus, e nos damos conta de que só uma coisa importa: esse Amor!