Amar a Deus na prática
Alexandre Augusto Tavares, 29/5/2022
· Espiritualidade ·
Amor, dever natural
Amar a Deus é o primeiro e principal dos Mandamentos da Lei divina. A palavra mandamento tem como sinônimo preceito, que talvez seja mais facilmente compreendido em nossos dias. Isto porque a mentalidade do homem atual está melada pelos princípios igualitários e revolucionários segundo os quais “é proibido proibir”. Tendemos a tomar qualquer ordem superior como uma imposição injusta, um abuso autoritário. Já a palavra preceito ─ que significa “recomendação, regra, norma, ensinamento, lição” ─ expressa mais a ideia de uma obrigação não impositiva.
Com efeito, os Mandamentos divinos não são ordens compulsórias, mas sim DEVERES que nós, seres humanos, temos OBRIGAÇÃO de cumprir pelas seguintes razões:
para a manutenção da ordem natural do universo;
para a preservação do nosso equilíbrio físico, psicológico e espiritual;
em agradecimento e correspondência à bondade de Deus, que nos criou para compartilhar conosco sua alegria eterna;
para imitarmos a perfeição de nosso Criador, e assim nos unirmos mais a Ele.
Os Mandamentos são, portanto, como os corrimãos de uma escada alta e perigosa, que nos ajudam a não cair. Na verdade, são normas tão óbvias que ─ se não fôssemos tão malandros... ─ nem precisariam ter sido “mandadas”. Porque temos os Mandamentos escritos em nossa consciência, e desde pequenos sabemos que devemos: adorar, respeitar e cultuar a Deus; honrar pais e autoridades; não matar; não roubar; não mentir; não fornicar; não desejar coisas nem cônjuges de outrem.
A filosofia católica, particularmente a escolástica, traz do aristotelismo o conceito básico de sindérese da razão, pelo qual o ser humano tem uma capacidade natural inata, espontânea e imediata para apreender os princípios da ética e intuir o comportamento moral correto, correspondente à prática dos Mandamentos. Contudo, esta boa intuição pode ser rejeitada pelo livre arbítrio, em troca de conforto ou prazer (ainda que imaginário). Mas tal recusa introduz na razão um conflito, que exigirá uma “explicação”. E se nossa vontade optar pela permanência no erro, forjará uma falsa explicação, que se introduzirá em nossa consciência como um princípio falso para justificar o comportamento errado. Neste caso, ocorre uma deturpação da intuição original que, quanto mais persistir, mais servirá para reduzir e apagar a impressão de erro e de culpa. Ou seja, nascemos com uma intuição natural da verdade. Daí ter São Tomás de Aquino afirmado que somos inerrantes enquanto não pecarmos. Mas o desejo do prazer nos leva ao pecado e à distorção da verdade. O ser humano racional não comete o mal pelo mal: sempre dá uma “explicação positiva” que “justifica” o erro.
O que não é o amor
Romantismo sentimental
No final da Idade Média o teocentrismo (Deus no centro) começou a ser substituído pelo antropocentrismo (o homem no centro). E o amor, então devotado a Deus, inclinou-se para o ser humano. Ora, como disse Santo Agostinho, só há dois amores: o de Deus e o de si mesmo. Quando amamos algo ou alguém, ou o fazemos por amor de Deus, ou pelo nosso próprio amor e satisfação. Quando, portanto, alguém ama outrem romanticamente, equivale a dizer que ama o prazer que o outro lhe proporciona. O romantismo é uma caricatura do amor a Deus, é o amor-próprio disfarçado de amor alheio.
Baseando-se numa suposta necessidade de emoções, o romântico impregna as ações humanas com a sensualidade, buscando prazer em tudo o que faz. E como, no contato com Deus, sentir amor depende de uma graça sensível dada por Ele (somente quando Ele quiser), o romântico prefere o relacionamento humano, em que o simples imaginar-se amado e amando já é suficiente para forjar o sentimento prazeroso do amor. Na verdade, um prazer fictício e etéreo, mas ao qual o infeliz romântico se devota persistentemente, e com o qual nutre sua sensualidade.
O amor não é, pois, um sentimento, não está na potência do sentir, mas sim na do querer: amar é querer! Em relação a Deus, querer a glória d‘Ele; em relação ao próximo, querer o seu bem. Foi na aridez do querer que Jesus sofreu sua Paixão mortal, demonstrando-nos assim a abundância de seu amor.
Fé abstrata
Tem fé abstrata aquele que diz “eu tenho uma fé [enorme] em Deus” mas, na prática, nada faz com amor verdadeiro. Pois, como disse São Tiago (2,17), “a fé sem obras é morta”. A obra é a demonstração do amor, consequência da fé real.
Altruísmo gemido
Altruísta gemido é aquele que se preocupa mais com os outros do que com Deus e consigo mesmo. Não dá atenção sincera ao seu progresso espiritual e à sua relação pessoal com Deus: vive se sacrificando pelo próximo, como forma de demonstrar sua generosidade masoquista. E falta-lhe humildade ao exibir seus atos “heroicos” de generosidade: suspira e “geme”, para tornar conhecido seu esforço, a fim de ser reconhecido como herói, salvador do mundo. Presta-se muito bem a ser codependente de viciados e cuidador de pessoas problemáticas. A essas pessoas podemos aplicar aquelas palavra de Jesus: “Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu.” (Mt 6,1)
Hiperativismo dissipado
Muita gente que se dedica a “boas obras”, afunda-se tanto em atividades, que acaba prejudicando drasticamente sua vida interior, sua intimidade com Deus. A essas pessoas aplica-se a advertência: “Do que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?” (Mc 8,36) Nossa salvação tem que ser a primeira preocupação: depois o aplicar-se às boas obras!
A vida do cristão exige um equilíbrio entre ação e oração, atividades e vida interior. Pela narração evangélica vemos que Jesus dedicava muito tempo à oração, sem deixar de ser ativo. Viveu plenamente este equilíbrio, inclusive preparando-se durante trinta anos para seu ministério público.
A ilustração deste artigo mostra o episódio em que Marta e Maria receberam Jesus em sua casa. Enquanto Maria ficou todo o tempo com Jesus, Marta cuidou de preparar-lhe o que servir. Aparentemente Marta mostrou-se a mais solícita, dedicada e sacrificada. Chegou a cobrar de Jesus: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude.” (Lc 10,40)
Porém, a resposta de Jesus foi: “Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada.” (Lc 10,41-42)
O verdadeiro amor
1. Deus é amor
Para começar a descrever o amor autêntico, consideremos que a caridade é uma das definições da própria Divindade: “Deus é amor.” (1Jo 4,8) E “o amor nos vem de Deus” (1Jo 4,7). É participando do amor d‘Ele que chegamos a amar retamente.
Já dissemos que o amor é a obra que prova estar viva a fé. E essa “obra”, que podemos aqui chamar de prática se manifesta em duas direções: uma em relação a Deus, e outra em relação ao próximo.
A principal prática do amor visa nossa união pessoal com Deus: momentos de intimidade, de oração, de meditação e oferta de sacrifícios. E a segunda prática está voltada ao próximo: “Se nos amarmos mutuamente, Deus permanece em nós e o seu amor em nós é perfeito.” (1Jo 4,12)
Dedicar-se ao próximo também é uma prática de amor: ajudar e fazer-lhe todo o bem que nos seja possível, sem, entretanto, prejudicar a nossa relação pessoal com Deus.
Não há descrição ao mesmo tempo mais linda e completa do amor, do que aquela que São Paulo nos deixou: “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais acabará.” (1Cor 13,4-8)
2. Ação de graças como gesto de amor
“Naquela mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: ‘Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te porque assim foi do teu agrado.’” (Lc 10,21)
São muitos os motivos para nos alegrarmos e vivermos agradecidos pelos dons que Deus nos concede.