Alguém pode me adorar, por favor!?
Alexandre Augusto Tavares, 10/3/2025
· Espiritualidade ·
Na caminhada espiritual rumo à perfeição da união com Deus, há muitos obstáculos a serem eliminados em diversos períodos na vida cristã. Um dos empecilhos mais notáveis, mencionado diversas vezes por Jesus, é o mundo.
Grandíssimo adversário da santidade e da salvação humana, o mundo é a opinião pública, uma espécie de padrão coletivo, contrário a Deus, que dita modas e comportamentos. Quem quer se unir a Deus deve deve tomar a decisão de romper completamente com as atitudes e procederes mundanos.
Nesta segunda década do terceiro milênio, há uma tentação particularmente maléfica para quem busca a perfeição: a exposição nas redes sociais.
Quando uma pessoa publica uma foto ou um vídeo numa rede social, o que ela está querendo? Ao compartilhar sua imagem e sua vida pessoal, qual é o seu objetivo? Muita gente nem pensa nisso: só posta espontaneamente, já como costume, sem refletir. Entretanto, Deus nos julgará no dia da nossa morte, levando em conta principalmente o motivo pelo qual agimos em cada micro circunstância da nossa vida. Ao morrermos pesará seriamente na balança da nossa avaliação a nossa intenção para cada ato realizado.
Vamos, então, levantar algumas possibilidades sobre a intenção de quem posta algo pessoal na internet: Autopromoção? Exaltação pessoal? Esnobismo? Carência emocional? Crise de anonimato? Crise de inferioridade? Crise de abandono? Desejo vaidoso de aparecer, de se mostrar? Despertar inveja em alguém?
Fiquei aqui um bom tempo procurando uma razão positiva para esta lista, mas está difícil... Talvez: desejo de ensinar algo bom. Mas isto também poderia encaixar-se em algo negativo: a sede de domínio, o afã de controlar, de influenciar, de dirigir, de ditar regras, modas e atitudes, como um deus que publica seus mandamentos; ou ainda poderia ter como motivação qualquer uma das razões da lista negativa.
Enfim, esta exposição pode, sim, ter um motivo plausível e santo, que será recompensado por Deus no momento do nosso juízo. Mas como é perigoso caminhar por esta pinguela! Tão fácil se desequilibrar e cair no abismo...
No tocante à intenção, existe ainda algo importante a considerar: a falta de sinceridade. Quando uma pessoa deseja algo no coração, sua mente subconsciente cria razões para realizar seu desejo. Como disse o imperador Júlio César, homines quod volunt credunt: “Os homens acreditam no que desejam.” Ou seja, quando o homem deseja algo, ele passa a acreditar que aquilo é bom, criando motivos positivos para justificar a realização do seu desejo, ainda que, de fato, não seja bom.
Um dos jeitos fáceis de saber se nossas atitudes estão sendo guiadas por bons desejos é observar os frutos: ninguém que viva de intenções santas em seu proceder cai em pecado. Se existe um vício, há quedas frequentes, sim, é preciso investigar o que está sendo feito com intenção impura. Será necessário deixar de fazer coisas cuja intenção não está clara, para descobrir seu motivo de fundo.
Pode parecer estranho termos que desconfiar de nossas próprias intenções e investigá-las, mas é sim necessário, porque nosso querer é corrompido pelo pecado, às vezes de forma muito sutil, revelando uma ausência do amor de Deus, substituída no caso por amor-próprio, orgulho, vaidade. De fato, um dos quesitos para se obter a plena confiança em Deus é desconfiar de si mesmo.
O desejo de exaltar-se no ser humano é tão latente (mesmo que disfarçado e oculto) que o seu fim é sentar-se no trono de Deus e reger o universo, sendo adorado e reverenciado por todos.
Isto parece ser incentivado pela semelhança que nossa natureza tem com Deus, mais precisamente pela liberdade da nossa inteligência sensitivo-volitiva.
E isto faz com que, ao postarmos uma foto no perfil digital, tenhamos talvez uma intenção “justificada” positiva, mas, diante de Deus, não passa de orgulho e vaidade, equivalente a: “Por favor, alguém aí pode me adorar? Me incensar com um like? Me louvar com um compartilhamento? Me reverenciar com um comentário positivo?”