Alegria no equilíbrio, em Santa Teresinha de Lisieux

Alexandre Augusto Tavares, 9/3/23

· Espiritualidade ·

Olhar de Santa Teresinha do Menino Jesus

Olhando para a meiga fisionomia de Santa Teresinha do Menino Jesus, podemos dizer que ela é triste? Não! Podemos dizer que é inundada de alegrias? Não! Que é equilibrada? Sim! É no equilíbrio que moram todos os santos, neste ponto “neutro” intermediário, entre a alegria e a tristeza.

Alegria é alimento para a alma, que anima e dá força. E assim como a falta do alimento para o corpo leva ao desfalecimento, também a ausência da alegria conduz à morte. Para bem vivermos, precisamos, pois, nos alimentar da alegria.

Quando éramos pequeninos, os adultos nos davam na boca os alimentos, mas quando crescemos, devemos nós mesmos consegui-los.

De modo semelhante, no período de nossa infância espiritual, Deus e a própria natureza se encarregam de nos animar e tornar presente em nossa vida a alegria. De sorte que, mesmo passando por dificuldades, acabamos encontrando meios de nos manter em contato com ela. O próprio da criança é viver alegre, e este estado de espírito é ótimo.

Mas somos tendentes a abandoná-lo na medida em que nos tornamos adultos. Começamos, então, a olhar para vida pelos seus aspectos mais assombrosos, e povoamos nossa mente de tristeza e desânimo. O homem moderno tem uma habilidade impressionante para fugir da alegria. Daí o grande número de pessoas depressivas.

Falta-nos a alegria da inocência, a pureza de espírito e a confiança do pequenino, que Jesus evidenciou quando chamou uma criancinha, colocou-a no meio daqueles que O acompanhavam e lhes disse: “Em verdade vos declaro: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus. Aquele que se fizer humilde como esta criança será maior no Reino dos Céus.” (Mt 18, 2-4)

Enquanto a criança tende a ser naturalmente alegre, nós, adultos, precisamos “produzir” em nós este ânimo. Por isso disse Jesus “se não vos transformardes e vos tornardes”, supondo que esta transformação não é própria ao adulto, mas é para ele uma meta.

Então, olhemos neste momento para o nosso interior, para o nosso ânimo: Onde está a nossa criança? Ela mora em nós? Ou a sufocamos e não a deixamos emergir?

Manter viva esta criança interior na idade adulta merece um cuidado constante da nossa parte. Pois isto não acontece naturalmente: temos que “fabricar” em nós aquela confiança, aquela despreocupação e inocência da criança. E ainda tomando o cuidado para não nos tornarmos infantis, pois o equilíbrio consiste em combinar “a inocência da pomba com a astúcia da serpente” (Mt 10,16).

No relacionamento com a alegria, devemos combinar a confiança e a despreocupação com a oração e o trabalho. Santo Inácio de Loyola nos ensina a “agir como se tudo dependesse de nós, mas sabendo que tudo depende de Deus” (Exercícios Espirituais).

Assim como não podemos ficar esperando o alimento chegar sozinho à nossa boca, também não devemos ficar aguardando passivamente a chegada da alegria. Pois a alegria é um estado de alma que pode ser “criado” por nós.

O que acontece na cabeça da criança para ela viver mergulhada num mundo mais feliz? A ausência de preocupações. Ela não precisa se preocupar com a provisão de dinheiro, alimentos, bem-estar da família, etc. Mas quando crescemos, passamos a nos preocupar com tudo isto. Não deveríamos! Porque assim como a criança conta com o auxílio dos adultos para que lhes chegue tudo o que é necessário para sua vida, também assim nós, adultos, devemos contar com a ajuda de Deus para providenciar tudo isso! Não, é claro, esperando que Ele nos traga tudo sem o nosso esforço, mas confiando n’Ele e não nos preocupando com essas provisões.

Peçamos a Deus o nosso “pão de cada dia”, façamos o que estiver ao nosso alcance para o termos em nossa mesa, e repousemos a nossa alma com aquela paz e alegria confiante dos filhos de Deus!

“Não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas? Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.” (Mt 6, 25-34)

Deus ama e ajuda a alma confiante e alegre: “Deus ama quem dá com alegria. Poderoso é Deus para cumular-vos com toda a espécie de benefícios, para que, tendo sempre e em todas as coisas o necessário, vos sobre ainda muito para toda espécie de boas obras.” (2Cor 9,7-8)

Que razão temos, pois, para nos preocuparmos com a falta do necessário para vivermos? Por que nos afligirmos com o desemprego, com a míngua de recursos para a construção ou reforma da casa, ou com qualquer outra falta?

Ponhamos em Deus a nossa confiança! Digamos a Ele, olhando para as nossas necessidades: “Senhor, confio e espero em Vós!” E já não nos preocupemos mais. Continuemos fazendo o que estiver ao nosso alcance, mas acreditemos com todo o coração que o necessário nos chegará.

Talvez não o “necessário” segundo o nosso critério egoísta e desajustado, mas conforme ao sapientíssimo critério de Deus, que nos dará sempre o melhor para nós.

Não busquemos, então, a fartura de dinheiro, de saúde, de fama, de boas relações! Deixemos Deus colocar tudo isso na medida exata em nossa vida. Sosseguemos essa nossa vontade ansiosa e birrenta! Olhemos para a Providência divina e comecemos a conhecer e a querer o que é realmente melhor para nós.

E assim, harmonizados com Deus, o nosso querer nos trará a paz de espírito e o equilíbrio, juntamente com a alegria e o ânimo.

Então, seremos capazes de seguir tranquilamente aquele conselho evangélico: “Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um semblante abatido para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto. Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está presente ao oculto; e teu Pai, que vê num lugar oculto, te recompensará.” (Mt 6)

Isto pode ser aplicado a todas as dificuldades da vida, e assim não será difícil mostrarmos sempre um brilho de alegria e confiança em nosso olhar, porque tudo o Senhor nos providencia.

E, por fim, não nos apeguemos sequer à alegria, pois seu exagero é também um desequilíbrio: “a virtude está no meio”, como disse São Tomás, ou seja, entre dois extremos errados.

Vivamos com o nosso ânimo equilibrado, sem tristeza nem febricitação. Sejamos indiferentes às dificuldades e aos prazeres da vida, porque este é o equilíbrio.

Nossos desejos desordenados estarão assim apaziguados e conectados à sabedoria e vontade de Deus, de modo que possamos viver aquele santo desapego de que falava São Paulo: “Os que têm mulher vivam como se não tivessem mulher; e os que choram, como se não chorassem, e os que estão alegres, como se não estivessem alegres; e os que fazem compras, como se não possuíssem coisa alguma; e os que usam do mundo, como se dele não estivessem gozando. Pois a figura deste mundo passa.” (1Cor 7, 29-31)

A verdadeira alegria mora, pois, no equilíbrio.