A regra das quotas

Alexandre Augusto Tavares, 28/10/25

· Espiritualidade ·

Pessoa tirando uma quota de um dinheiro

O instinto racional do ser humano o leva a planejar sua vida – ou, pelo menos, seu futuro próximo –, de modo a providenciar os meios necessários para sua subsistência.

Entretanto, o conceito e o limite dessa necessidade varia, de pessoa a pessoa, dependendo do padrão de vida almejado, envolvendo status, cargo, responsabilidades e outros fatores.

O fato é que, diante de Deus, cada indivíduo tem uma quota de necessidades básicas (evolvendo bens, regalias, comodidades, lazer, saúde e até paz interior), delimitada pelo que lhe é realmente indispensável. E, ultrapassado o limite básico desta quota, chega-se ao nível do supérfluo.

Esta quota tem grandíssima influência sobre o destino eterno de cada alma. Porque faz parte do estado de prova do homem nesta vida, amar a Deus acima de tudo o que ele possa ter ou desfrutar. Não estamos aqui para o prazer, mas para demonstrar nosso amor generoso e desinteressado ao Criador, a fim de alcançarmos o prêmio da glória que Ele nos oferece.

Não obstante o caráter subjetivo dessa lógica, existe uma regra: a quota de cada homem não pode ser ultrapassada sem prejuízo próprio. Pois ingressar voluntariamente no campo do supérfluo demonstra preferência por este mundo, em detrimento do amor a Deus e da vida eterna.

Isto significa que devemos todos viver no limite do indispensável? Levando em conta as reais necessidades de cada um, a resposta é sim!

Foi isto o que aprendemos de Jesus, o Rei do Universo, que entretanto:

nasceu num estábulo, longe de casa, em situação precária (Lc 2,6-7);

foi exilado e perseguido desde criança (Mt 2, 13-23);

viveu no anonimato e na simplicidade, como “filho do carpinteiro” (Mt 13,55 e Mc 6,3);

passou 40 dias no deserto, sendo tentado em jejum (Mt 4,1-11 e Lc 4,1-13);

durante sua vida pública, sequer tinha “um lugar para reclinar a cabeça” (Mt 8,20 e Lc 9,58);

alertou para o perigo do apego à riqueza, sobretudo em seu aspecto espiritual (o orgulho);

elevou a simplicidade a nível de bem-aventurança (Mt 5,3 e Lc 6,20).

São ainda notórios os conselhos para vivermos na total dependência da Providência divina, confiando que Ele nos proverá, sem a necessidade do supérfluo:

“Não ajunteis para vós tesou­ros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam.” (Mt 6,19-20)

“Não vos preo­cupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas? Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.” (Mt 6, 25-34)

Ensina-nos ainda a rezar ao Pai, dizendo “o pão nosso de cada dia dai-nos hoje”. Não o supérfluo, mas simplesmente o “pão nosso”, a comida básica; não para nos alimentar durante dias, semanas ou meses, mas “a cada dia”, “dai-nos hoje”.

Abandonar-se assim aos cuidados da divina Providência é viver no limite do necessário, sem avareza nem ambições megalomaníacas.

Este limite invisível parece indicar uma proporção de desapego indispensável para a salvação do homem. Ele faz parte de um preço que devemos pagar, como demonstração de nosso amor.

Assim, para as almas que nesta vida ambicionam saúde, prosperidade e prazeres, Deus pode conceder-lhes o que querem, não como bênção, mas como paga de algum bem que tenham feito na terra; porém, ao fim de sua vida, espera-lhes o tormento.

Pelo contrário, àqueles que querem amar e servir o Senhor, Deus lhes mantém no limite da quota e, quando a ultrapassam em algum ponto, devem abrir mão de outro benefício, para equilibrar e compensar o excesso.

Ou seja, quando um eleito obtém algo que é supérfluo – ainda que lhe pareça necessário –, a Providência lhe corrige a quota tirando-lhe de outro lado.

Nesta balança pesam itens como finança, sucesso profissional, aquisição de bens, honras, amizades, lazer, harmonia na família, saúde corporal e mental, sono tranquilo e paz interior. Ninguém pode ter tudo ao mesmo tempo, pois o objetivo da quota é regular o nível de entrega, desapego e sacrifício. Portanto, faz parte da regra haver carências em alguns desses itens.

A não ser que alguém esteja recebendo nesta vida a sua paga, o normal é provar a carência.

Pode acontecer também, como nos narra a história do santo Jó, períodos da vida em que tudo falta, e períodos em que tudo prospera. Mas uma coisa compensa e equilibra a outra, mantendo o limite da quota.

Não nos preocupemos, pois, quando algo ou tudo nos faltar: a Providência divina controla sabiamente tudo para o nosso bem. Basta confiarmos e nos abandonarmos a esse controle infalível, que alcançaremos o nosso prêmio.

Essa visão cheia de fé e confiança em Deus nos mostra uma realidade bem diversa daquela que o mundo apresenta, de que sucesso e prosperidade são sinal de bênção, e revés ou carência, sinal de maldição.

O grandíssimo sucesso da vida de um cristão consiste em fazer a vontade de Deus e submeter-se generosa e despretensiosamente ao nível e estilo de vida que o Senhor lhe preparou, pois assim ele viverá na alegria e na paz de espírito, mesmo durante os aparentes revezes e carências.

Que Nossa Senhora da divina Providência, aquela que sempre abandonou tudo nas mãos do Senhor, conceda-nos a graça de nos descontrolarmos e nos perdermos confiantes nas vias do amor a Deus, para cumprirmos cegamente a sua divina Vontade!