A ordem no Quartel General do Marechal Foch
Plinio Corrêa de Oliveira, 15/5/1976 - Comentários aos escritos de Weygand (Santo do Dia)
· História ·
Vamos considerar agora um trabalho do General Weygand sobre a mentalidade e o trabalho do General Foch, que foi o grande cabo-de-guerra francês na I Guerra Mundial.
Para os mais novos, seria bom uma rápida nota biográfica a respeito de Foch e Weygand.
Maxime Weygand (1867-1965), comandante militar francês na Primeira e na Segunda Guerra Mundial
A guerra foi concebida pelos estrategistas alemães da I Guerra Mundial, mais ou menos, à maneira da II Guerra Mundial: o que eles chamam a Blitzkrieg, ou seja, a guerra relâmpago.
A concepção é de que a guerra tem que ser ganha na primeira investida; do contrário, está liquidada. Por causa disso, todo o exército alemão era organizado de maneira a dar uma primeira investida na França e liquidá-la.
A França era concebida, naquele tempo, como a Alemanha com o sinal "menos" na frente: a potência maior do continente, ao mesmo tempo inimiga da Alemanha e que tinha um poderio a contrastar adequadamente com o poderio alemão.
A França e a Alemanha viviam, entretanto, em condições muito diferentes. Naquele tempo a Alemanha era militar e autoritária. A autoridade estava nas mãos do Imperador, Kaiser Guilherme II, e de um Gabinete apoiado na aparência por um sistema democrático meio parecido com o sistema inglês.
Na realidade, porém, a estrutura social da Alemanha era profundamente diferente da Inglaterra. O eixo, o nervo da política na Alemanha era a Prússia; e na Prússia, a classe com mais influência era a dos chamados Junkers, senhores de terra, todos militares.
O exército prussiano, portanto, é quem governava a Alemanha; ele mandava na Prússia e esta mandava na Alemanha. Dizia-se da Prússia que “as outras nações têm exército, mas que a Prússia era um exército que tinha uma nação”... Isso faz sentir bem a inversão dos valores.
Ora, a França era um país em condições exatamente opostas: uma república profundamente influenciada pelas ilusões pacifistas das democracias de então, e que tinha sincera esperança de que jamais teria que entrar em guerra com a Alemanha, depois da que travou em 1870, na qual a Alemanha tinha se unificado e tinha arrancado da França a Alsácia e uma parte da Lorena.
Os franceses - como sempre acontece com os pacifistas - estavam metidos no gozo da vida, tal qual certa parte dos norte-americanos de que o Sr. “x” acabou de relatar. A França tinha um exército com oficiais brilhantes, com soldados corajosos, mas muito individualistas. E não estava preparada para a guerra.
De maneira que quando inopinadamente o arquiduque herdeiro da Áustria Francisco Ferdinando e sua esposa foram assassinados em Sarajevo, e isso ocasionou uma declaração de guerra da Áustria à Sérvia e, por ricochete, da Rússia à Áustria, e depois, por ricochete, de todas as grandes potências europeias entre si, e a guerra rebentou, os exércitos alemães já tinham tudo pronto para começarem a invasão, estavam perto das fronteiras e entraram pela França adentro.
Assim sendo, a França teve que suspender os seus prazeres, os seus deleites e oferecer uma resistência à Alemanha completamente improvisada. Para os srs. terem uma ideia, na batalha da Marne, para transportar os soldados franceses para o ponto onde inopinadamente apareceram os alemães, foi preciso requisitar todos os táxis de Paris. E foi em táxi que o exército francês foi oferecer resistência em Marne...
Tínhamos, então, duas concepções da guerra que são dois estilos de vida e dois modos de ser que se afrontavam: o alemão, que representava a ofensiva, o ataque, a organização; o francês, que representava a improvisação latina, o espírito heroico de resistência, mas não o espírito de ofensiva – era a defensiva por oposição à ofensiva –, em que o heroísmo não era tanto das grandes massas militarizadas, mas era de cada um resistindo no seu próprio posto.
Não se sabe até hoje – é um mistério histórico – porque foi destituído do comando do exército francês o general Joffre (1852-1931), que vinha oferecendo uma boa oposição e que havia ganho uma batalha brilhante na Marne.
O fato é que Joffre representava a parte anticlerical do exército francês. E foi substituído por um general até então pouco conhecido, General Foch, irmão de um padre jesuíta, ex-aluno dos jesuítas ele mesmo – mas no tempo em que os jesuítas formavam católicos e que ser ex-aluno jesuíta marcava profundamente – e com a disciplina de espírito de um inaciano do grande tempo. E que levava para suas funções de generalíssimo do exército francês – e do exército aliado inglês, norte-americano etc., que acabaram atuando sob a direção dele – todo o método inaciano de um verdadeiro jesuíta, mas no sentido bom da palavra. E isso com um modo de agir que nos dá a conhecer algo do que seria a verdadeira formação inaciana.
Trabalhou no Estado-Maior dele o General Weygand. Bom general, que se destacou bem na guerra, que teve uma atitude pífia na II Guerra Mundial – não chegou a ser um traidor, porém sua atitude foi muito duvidosa – mas excelente literato, membro da Academia Francesa de Letras. E como tal não era apenas um fazedor de frases bonitas.
Na Europa não se tolera a noção – ainda frequente no Brasil, e mais frequente outrora – de que o literato é o homem que trata de qualquer maneira a respeito de qualquer tema, desde que a frase saia bonita. É meio parecido com as casas de papelão em certos países, que têm forro de pedra por fora e o resto é papelão. A frase sendo bonita na aparência, o sujeito é “literato”. Isso na Europa não se tolera, e se despreza. É preciso ter pensamento, e exprimi-lo de modo bonito. Mas o elemento fundamental da beleza não é a frase cheia de imagens; é a lógica. O puro ornato é admitido e apreciado, mas vem no fim. Substância e lógica são o elemento fundamental da produção intelectual.
Ele, então, escreveu numa revista francesa "Historia" de janeiro de 1965, um histórico muito bem feito, a respeito do quartel-general do Gal. Foch e da vida que lá se levava.
Já fiz uma série de conferências sobre isso, para a TFP. O Sr. Leo é de opinião que os senhores, que são novos, teriam interesse em refazer esse curso de conferências a respeito do Mal. Foch, com o intuito de transporem, com as devidas adaptações, para nossas condições de civis, portanto não militares. E para verem dentro da ação não militar, mas que é uma verdadeira luta (a guerra psicológica contra-revolucionária) que a TFP conduz, como deve ser a mentalidade do verdadeiro membro da TFP, formado seguindo a tradição católica e mais especificamente conforme o espírito inaciano.
Os senhores vão encontrar um choque, um contraste, entre o conceito de guerreiro que está aqui nesse texto do Weygand, e o conceito de guerreiro comum entre nós, no povo brasileiro.
O conceito de guerreiro do povo brasileiro é mais ou menos assim: um homem emotivo, que quando sabe que vai haver uma batalha, vai fabricando dentro de si uma raiva. Quando ele está doido de raiva, está bom para a guerra. Então, pega um fuzil e vai matar. E é bom guerreiro enquanto dura a raiva; quando parar a raiva, deixa de ser bom guerreiro.
Mas não é absolutamente o conceito que está descrito pelo Weygand. O conceito é inaciano, no seguinte sentido da palavra: Santo Inácio de Loyola, ou melhor, o livro dos Exercícios Espirituais se pode definir assim: meditação para levar um homem a cumprir um dever desagradável. E a fórmula não é tornar agradável o dever, mas convencer o homem de que deve cumprir o dever e dar-lhe o espírito de sacrifício para fazer todo o necessário para que tal dever seja cumprido.
Aí os senhores têm um choque com muito da mentalidade brasileira e, pelo que vejo, latino-americana. E que entende, por exemplo, que o bom pregador é o que sobe ao púlpito – no tempo em que havia púlpitos... – e que diz umas coisas tão bonitas de tal sorte que quem ouve, considera gostoso cumprir tal coisa. E então cumpre. Por exemplo, trata-se de persuadir as pessoas a não roubarem. Então faz um sermão tão bonito a respeito da honestidade, emprega umas palavras tão rebuscadas em português: "honestidade adamantina"... dando uma espécie de consolação no momento de ser honesto. Então, fica honesto durante uns dias. “Oh! Que grande pregador! Tornou agradável ser honesto...!”
Santo Inácio não tem nada disso. Ser honesto é, em geral, agradável e, às vezes, muito desagradável; porque a gente resolveria uma porção de situações desagradáveis sendo desonesto. Logo, é muito agradável de vez em quando ser desonesto. Mas trata-se de ficar honesto, apesar de ser agradável ser desonesto. É persuadir. É a razão, inspirada pela Fé, dominando a vontade. Sentimentos, imaginações, fantasias de lado. Esse é o Foch, e assim vamos vê-lo vencer a I Guerra Mundial, e se tornar o soldado mais célebre da França no século XX.
* O estilo francês manifestado no modo pelo qual era organizado o Estado-Maior do Mal. Foch
Vamos ver, portanto, como funcionava o Estado-Maior de Foch, conforme narrado no artigo antes mencionado:
“O Estado-Maior de um grupo de exércitos era um organismo muito ligeiro: um chefe de Estado-Maior, um terceiro "bureau", o das operações; um segundo "bureau" que era o das informações; um oficial incumbido de administrar o pessoal e o material; um "bureau" de decifração; uma secção postal dirigida pelo comandante do Quartel-General.”
Corresponde ao estilo francês da guerra, diferente do alemão. Se um alemão fosse elogiar – são grandes guerreiros, notem bem, longe de mim dizer que ficam abaixo da França nessa matéria, longe de mim negar – mas o alemão começaria por dizer: "O Estado-Maior é um organismo super-equipado, sólido, e capaz de resistir a qualquer impacto e realizar qualquer esforço". Surpreende, portanto, ouvir-se esse elogio:
“O Estado-Maior de um grupo de exércitos era um organismo muito ligeiro...”
Por quê? Pensamento e movimentação muito mais do que burocracia. É o aproveitamento do gênio e da capacidade própria do latino.
O que há aí? Um Chefe de Estado-Maior; um bureau de operações, quer dizer, o exército é agir, é a guerra, os deslocamentos e a batalha. Informação, Administração do pessoal e do material – das armas portanto –, decifrar cartas e Seção Postal, dirigidas pelo Comandante do Quartel-General. Serviços mínimos para um exército inteiro. Para quê? Para ser movediço.
O que é bonito é o contraste: esse serviço tão móvel ao serviço de um general imóvel como uma coluna. Aqui entram os tais contrastes harmônicos que fazem ver o gênio francês e a mola francesa na guerra. Se eu tivesse, no gênero, um trabalho sobre o exército alemão, faria com alegria uma análise do gênio alemão através disso. Dia virá em que as nossas potências, que se dizem emergentes, terão também coisas dessas a respeito de seus próprios exércitos...
A mim interessa que o exército incruento da TFP tenha também suas qualidades próprias. Como é a TFP? Ligeira? Audaz? Eficiente no voo? Ou é sólida, firme, organizada, estruturada possantemente? É uma coisa que se poderia perguntar. Depende, em grande parte, dos senhores. Porque eu não sou fazedor de planos nos ares, e a TFP é resultante de uma ideia dada por mim e de uma generosidade dada pelos senhores. E quando a generosidade sai a meias, a ideia sai a meias, meio coxa, manca ou caolha. A TFP será o que os senhores forem. Será de acordo com a correspondência que derem ao jornal falado que o Sr. “x” nos deu há pouco, a essa conferência que estou fazendo.
* Estilo TFP de comandar: de dentro do isolamento, o chefe pensa, informa-se, informa, dirige. Quando sai de seu isolamento, arrasta todos atrás de si
“O General Foch tinha dois oficiais de ordenanças, dos quais um particularmente incumbido de sua casa e de sua mesa. No total, entre vinte e vinte e cinco oficiais. É esse Estado-Maior muito reduzido que é preciso ter sempre em vista junto do general. Nosso Estado-Maior procurava a calma das pequenas localidades ou dos castelos isolados...”
Iam, portanto, a castelos góticos, feudais, ou a castelos dos tempos modernos, lindos, clássicos, harmônicos e isolados; e dirigir a guerra de dentro da solidão. Isso é inaciano a mais não poder: para agir muito, é preciso pensar antes de tudo. E para eu estar no centro da ação, eu devo estar longe dos acontecimentos. Porque sou chefe e devo estar presente pelo pensamento. Logo, eu me isolo. Isso é Santo Inácio cem por cento!
Certamente não é, por exemplo, estilo “hollywoodiano”, que precisa estar dentro das coisas. Não é sul-americano. Não sei em matéria militar, mas nosso temperamento é a ideia de que é preciso estar dentro da coisa, vibrando e torcendo.
Vejo aqui todo mundo se sentindo engajado nessa descrição. E não é o sistema Foch e não é o estilo TFP. O estilo TFP é: se um chefe tem bons auxiliares, isolar-se; e, de dentro de seu isolamento, pensar, informar-se, informar, pensar, dirigir. De vez em quando, nas horas terríveis, ele vai para a frente. Mas também são horas em que, estando à frente, ele arrasta todo mundo atrás de si. Porque saiu de seu isolamento. Isso é o verdadeiro modo de fazer as coisas.
“...nos quais a modéstia de seu efetivo lhe permitisse encontrar folgadamente um lugar de pouso. Os lugares onde as exigências das operações nos fizeram sucessivamente deixar a âncora eram em geral situados fora ou à proximidade das grandes artérias de comunicação a fim de se beneficiar de suas vantagens e de evitar seus inconvenientes.”
Nada de um Quartel-General junto à autoestrada. Próximo, sim; junto, não. Devemos sempre ter a informação próxima da gente, mas não devemos estar colados aos acontecimentos, ao ponto de que não possamos fugir da informação para pensar. Um castelo próximo a uma grande estrada. Aí se pensa. Essa é a solução.
“Nessas residências sucessivas, a existência, o trabalho se organizaram sobre as mesmas bases: é esta vida e este trabalho que quero fixar a lembrança.”
Aí chamo a atenção para o bem organizado do espírito francês. Ele fala e indica no fim o objetivo de seu estudo a respeito do Mal. Foch. Se vamos estudar, é uma introdução perfeita. Tem todo o necessário para uma introdução.
Mas é tal e qual o livro do Conde de Ségur de que tratei há pouco tempo. Só no fim é que se percebe que cada ponto do prólogo tem um necessário na hora certa. Tem-se a impressão de que se está conversando, e é uma máquina perfeita. É o charme francês...
“Salvo nos casos de um castelo isolado, os escritórios do Estado-Maior são colocados fora da casa habitada pelo Gal. Foch.”
Mais um isolamento. Quando pode, ele mesmo ainda se isola de seus escritórios. Coloca os escritórios à distância do centro de operação; e ele se coloca distante de seus escritórios.
* Comentários sobre o dia a dia do Mal. Foch
“Quando os acontecimentos não se decidem de outra maneira, eis como era distribuído o seu dia. Em princípio, o trabalho sedentário ocupava a sua manhã. Seu escritório está instalado no mesmo local que o Estado-Maior, o meu sempre contíguo ao seu.”
O escritório dele é no Estado-Maior. Não a residência. Quando ele sai para dormir, comer, fazer sesta, conversar um pouco é fora.
“O general chega às oito horas precisas, em todas as circunstâncias e em todas as estações do ano.”
Não tem soninho a mais, ou uma noite de insônia em que ele chega mais cedo, em que está torcendo por uma novidade... Aconteça o que acontecer, ele não chega cinco minutos antes para conhecer o resultado de uma batalha que se deu durante a noite, e que pode ter decidido a carreira dele, a sorte da França ou a sorte do mundo.
Às oito horas, Foch está chegando. Percebam bem toda a distância psíquica que isso representa: toda a “maîtrise de soi”, o domínio sobre si mesmo, o senhorio de si.
“Eu lhe presto contas incontinente de todos os acontecimentos da noite. Ele ouve esse relatório com uma atenção igual à precisão que exige, pois nenhuma manifestação da atividade inimiga lhe parece própria a ser subestimada.”
Vejam por aí como ele está longe de ser um relaxado. Primeira coisa é informar-se. Um jeito de começar a trabalhar que, talvez, os senhores tenham presenciado fora da TFP: "Mande-me um mapa! Sicrano! já seguiram os canhões?" Nada disso. Primeiro, informação. Depois vamos ver o resto...
Chamo a atenção dos senhores para esse ponto:
“Eu lhe presto contas incontinente de todos os acontecimentos da noite. Ele ouve esses relatórios com uma atenção igual à precisão que exige.”
Quer dizer, ele fica prestando uma atenção inteira, mas quer precisão inteira também.
“Depois o trabalho começa. Ele apresenta a maior variedade, não somente em razão da diversidade dos temas tratados, mas também quanto ao modo pelo qual se estabelece. Se um acontecimento novo reclama uma decisão a tomar, ou uma instrução a dar, a questão é regulamentada imediatamente e pode não pedir senão um momento como também exigir várias horas de trabalho.”
É natural. Conforme a natureza do problema, quem tem a coisa clara na cabeça, manda vir logo; ou são necessárias horas de estudo antes de decidir. Portanto, a mania de decidir logo não é boa. A ideia de que o verdadeiro chefe é o que decide depressa é uma ideia tonta. O chefe não decide depressa nem devagar. Ele decide depressa quando é possível; devagar quando é necessário. Nunca decide sem conhecer bem o problema a respeito do qual vai tomar uma decisão.
“Eu posso igualmente ter de submeter ao general um documento cuja "mise au point"...”
São os dados para ele poder avaliar bem o alcance do documento.
“...estaria em curso e do qual ele não estabeleceu ainda o texto definitivo.”
Ou melhor, é submeter o rascunho de um documento. Ele precisa dar a “mise au point” do rascunho; o rascunho está em curso e o próprio Gal. Foch ainda não chegou a uma ideia definitiva sobre o texto. Pode ser esse o tema que ele tem que tratar.
“Frequentemente, o assunto é menos imediato e se relaciona com o estudo de uma dessas questões fundamentais, como a preparação de operações ulteriores, o armamento ou a organização das forças combatentes, que não se pode ter aprofundado a não ser sob a condição de se voltar várias vezes a elas.”
É preciso conversar cinco, seis, oito, dez vezes, até o problema estar claro. Isso exige então maturidade.
* Quanto menos pensa-se em si, tanto mais pensa-se em coisas sérias. Os momentos ápices do dia são aqueles em que não pensamos em nós mesmos
“Enfim, é frequente também que eu seja colhido por esta frase: "Eis a ideia que eu tive enquanto fazia a barba". Depois de ter exposto sua ideia, o general acrescentava, segundo o caso: "falemos disso", ou "pense nisto". A ideia pode ser absolutamente nova para mim, como também pode relacionar-se com o desenvolvimento de um trabalho que está em vias de realização ou a um projeto já encarado.”
É uma coisa também que por causa da nota teatral em tantas concepções da vida que há por aí, as pessoas não imaginam bem com é elaborar algo... Uma ideia lhe acode ao espírito; ele chega para o chefe do Estado-Maior e diz: "Enquanto eu fazia a barba, eu tive tal ideia". Os senhores podem imaginar o destino do mundo sendo resolvido enquanto Foch faz a sua barba?... Mas esta é a realidade!
Eu li há tempos uma nota muito pitoresca num livro que é uma antologia francesa, um “morceaux choisis” (trechos escolhidos) de um curso secundário. Aí mostrava como se deve pensar.
Então, era um grande matemático francês que contava como inventou uma fórmula que depois ficou célebre na matemática. Foi da seguinte maneira: ele ia dar um curso numa cidade próxima, e viajava de trem. Chegou correndo, na última hora, entrou, sentou-se no vagão e o trem saiu. Quando ele menos imaginava, veio à sua cabeça a ideia seguinte: "a fórmula é essa". Ele puxou uma notinha, escreveu e fez os cálculos. Era a fórmula e um horizonte novo no mundo da matemática...!
Evidentemente, por quê? Porque ele estava tão tomado por seu assunto que mesmo quando corria atrás do trem, ele estava raciocinando a respeito daquilo. Quando se sentou, a explicitação floresceu, ou melhor, frutificou em seu espírito! Ele colheu a fruta e registrou uma grande invenção!
Assim devemos ser a respeito dos assuntos que nos interessam. E é interessante os senhores se fazerem uma pergunta: no que pensam quando estão sós? No que refletem, por exemplo, quando fazem a barda? Têm pelo menos uma ideia disso?
Primeira pergunta: pensam? Isso iria tão longe que acho melhor não me aprofundar no assunto... Dou apenas um pequeno auxílio, para usar uma expressão horrível corrente por aí que é "dar uma mãozinha" no assunto: quanto mais a gente pensa em si, tanto menos pensa em coisa séria; quanto menos a gente pensa em si, tanto mais pensa em coisa séria.
Se uma pessoa tem o hábito de pensar muito no que faz, no que os outros pensam a seu respeito, o que os outros não acham dela, a se comparar com os outros, passar o dia inteiro lembrando-se das cenas em que esteve, ou imaginando as cenas em que vai estar, não pensa em nada de sério. É a eterna comédia diante de si mesmo. Se a pessoa não pensa a respeito de si mesma, tem tempo de refletir nas coisas sérias.
Então, seria interessante os senhores fazerem um exame de consciência: quantas vezes por dia pensaram em si mesmos, e quantas vezes pensaram em coisas que não tinham nada a ver com os senhores. Esses foram os momentos ápices do dia. Os outros foram os momentos baixos do dia. Mesmo porque, quando a gente pensa em si mesmo é inevitável a torcida. Torcer é pensar em si mesmo. E com a torcida é inevitável que venha a baixa de nível, o nervosismo e tudo o mais quanto se conhece.
Foch (à esquerda) na Av. Champs Elysées, em Paris, após a vitória na I Guerra Mundial
Os senhores estão vendo o Foch fazendo o contrário. Ao barbear-se, não está pensando no dia em que, num cavalo que ficou famoso, ele transpôs o Arco do Triunfo de Paris, aplaudido por toda a população da França e do mundo, como vencedor da guerra. Nesse dia, ele pensaria quando chegasse a ocasião. Antes disso pensaria na tarefa do dia, na guerra que tinha que ganhar, e não no papel dele como general quando tivesse ganho a guerra...
“Isto mostra que sou o mais das vezes levado a passar no começo do dia um tempo bastante longo com o general, às vezes várias horas.”
É claro. O chefe do Estado-Maior dele é o executor de suas ordens. Notem que o general chegou, ainda não recebeu ninguém. Só falou com um homem. É interessante os senhores estudarem, comparando isso com o temperamento próprio. Se os senhores, chegando ao seu “Estado-Maior”, gostariam de ter contato com todo mundo, ou gostariam de conversar com um só. Creio que muitos gostariam de conversar com todo mundo de uma vez; alguns – em número bem menor – em vez de notícias da guerra, gostariam de contar como passaram a noite; depois, então, saber como vai a guerra. E daí para a frente, outras misérias... Tudo isso é preciso ser lixado e polido. Formação inaciana!
* Outros aspectos da conduta do Mal. Foch: polidez, distância psíquica, disciplina militar inaciana
“Alguns dias, se a matéria é menos fecunda, se ele quer dispor do seu tempo para um trabalho pessoal ou se um visitante nos interrompe, posso voltar mais rapidamente ao meu escritório. Mas não é raro que ao fim de um momento o general apareça na moldura da sua porta e me chame com um gesto de sua mão direita, ao mesmo tempo que, se não estou só, por um gesto inverso da mão esquerda, ele detém toda veleidade de movimento da parte de meu interlocutor.”
Os senhores estão vendo a cena e a polidez. Como o outro é um general também, ele não chama, mas se levanta e vai à sala do outro. De outro lado, chama o general com a mão direita. Não pense que ele usa a mão direita por qualquer motivo, como quem assoa o nariz. Quando uma pessoa tem a densidade de observação do Foch, tudo tem a sua razão de ser. Os outros querem se levantar e cumprimentar. Ele faz sinal com a mão esquerda. Distância psíquica: "Eu quero estar só e quero pensar. Venha cá, general, vamos conversar". Está tudo regulado e ordenado. Acho tudo isso muito interessante!
“Nesse caso, a menos que uma indicação raramente dada, não sei nunca por quanto tempo ficarei no escritório do meu chefe. Posso dizer que em via de regra, a maior parte da minha manhã, senão minha manhã inteira, lhe pertence.”
Estão vendo a disciplina militar inaciana. O dia do Weygand pertence ao Foch. O Weygand se limita a obedecer. É o que está dado a entender aqui. Em termos mais bonitos, mais palacianos, no Ancien Régime, uma vez houve uma tensão entre Luís XIV e o Duque de Saint Simon. Este último pediu uma audiência ao Rei, para se entenderem. E Luís XIV perguntou: "A tantas horas?" Ele fez uma reverência e disse: “Sire, je suis fait, pour attendre vos grâces e vos heures – Senhor, eu sou feito para esperar vossas graças e vossas horas". É o mesmo senso de disciplina.
O Weygand estava “para as horas e para as graças” do Foch. Assim era a coisa. Dito de um modo menos nobre, menos bonito. Não com menos varonilidade. Porque tanto o Weygand, como o Saint Simon eram muito varonis. Quando Saint Simon se encontrou com Luís XIV, o que ele disse foram “redondas e quadradas”. Luís XIV ouviu com toda a atenção e deu-lhe essa resposta: “Il faut toujours penser ainsi – É preciso pensar sempre como o senhor está pensando". A coisa é séria, mas alta de nível!
* Serenidade, equilíbrio e o domínio de si
“A mesa do general, sua alimentação diária, está sempre instalada na casa onde ele mora. A maior exatidão é de rigor, o almoço servido ao meio-dia, e o jantar às dezenove horas.”
O feliz Foch não está nas condições em que se encontra o infeliz Presidente do Conselho Nacional da TFP: janta às 21 hs., às 22:00 hs... porque aparece um que está com um problema aqui (no cotovelo) e é preciso tirar com uma pinça, cortar, e que não se incomoda com o horário... e até acha bonito ter tomado tempo. Acha “prestigioso” ter feito isso, porque deu trabalho...
Com o Foch, não senhor! A tantas horas bate o sino, ou bate o relógio, ele acabou e vai almoçar. Os canhões estão troando, os exércitos estão marchando, a história está se escrevendo sob a responsabilidade dele. Chegou a hora, levanta-se e vai almoçar. Os senhores dirão: "É um prodigioso «nhonhô» esse homem!" Não senhores! É um homem que compreende que o inteiro aproveitamento do tempo exige isso. E acabou.
“Além dos oficiais ligados à sua pessoa, os comensais habituais do general são: o chefe do Estado-Maior, o comandante Desticker, assim como Tardieu e Requin (os oficiais do período heroico da Marne).”
Tardieu foi depois um político muito sem-vergonha. Mas Requin não me lembro quem era.
“A refeição sem ser atabalhoada, não dura senão o tempo necessário. A alimentação é substanciosa e digna, mas não rebuscada.”
Todas as palavras são perfeitas aí!
Não se come depressa, como quem come um cachorro-quente num bar. Mas também não se fica à mesa conversando horas.
A alimentação é só substanciosa? Não. “Substanciosa e digna”. O que é a uma alimentação digna? É que tem uma categoria, um preço, um custo que corresponde à mesa do Chefe do Estado-Maior. Não é então um qualquer feijão misturado com não sei que paçoca. Não estamos mais no tempo famoso em que se chamava, no Ancien Régime, “la guerre en denteles”, ou seja a guerra dos fidalgos, que punham renda para ir combater e para morrer; em que cada fidalgo levava alguns lacaios, e o serviço de mesa era de prata, quando não de ouro. Na mesa de Luís XIV, sempre de ouro. Isso na guerra, com os canhões troando ali perto... Não se está mais nesse tempo. Mas ainda é uma alimentação digna e substanciosa.
“A exatidão imposta pelo general a seus comensais tornou-se legendária: conta-se que quando eu chegava atrasado, deveria tomar minha refeição num pequeno móvel. É inexato, pois nem eu, nem qualquer dos oficiais que tínhamos a honra de estar nesta mesa, jamais nos permitíamos um atraso.”
Ele não garante que não fosse mandado comer no “étagère”, mas eles nunca fizeram nada para que isso acontecesse... É ou não é verdade que dá aos senhores a ideia da vida de um chefe, da vida de um exército bem diferente da vida que os senhores imaginavam?...
“Por mais tensa que seja a situação, as horas jamais são modificadas.”
Ele conheceu horas tremendas, porque o exército alemão avançava e o francês ia recuando. Recuou tanto que o governo francês chegou a abandonar Paris e refugiar-se em Bordeaux. Com os alemães, ele fez um jogo bem jogado. Os alemães tinham a intenção de tomar a linha francesa e irromper no meio, porque rompendo no meio, destroçariam depois os dois fragmentos de exército isolados. O Foch refletiu sobre o assunto da seguinte maneira: Eu não consigo me manter, e vou recuando no meio; mas eles não se vão dar conta de que nos dois lados meu exército vai subsistir. Quando eles fraquejarem, eu fecho por detrás...
Plano bem pensado e simples e que foi feito, mas que supunha, com poucas tropas que de que dispunha, no ponto de avanço, estar sempre colocando tropas novas e resistindo do melhor modo possível, com pouco armamento disponível. Porque se os alemães rompessem naquele fundo de saco a linha dele, ele estava perdido!
Todo o problema era esse e a qualquer momento podia haver uma ruptura. E a qualquer momento, ele seria o general miserável, que ia dormir um sono sem glória nos depósitos da História. E não estaríamos aqui estudando as memórias do Weygand sobre ele, nem o Weygand escreveria sobre ele, nem nós saberíamos de Weygand... Então situação tensíssima, a qualquer hora podendo arrebentar.
“Quando as circunstâncias exigem, a refeição se faz em alguns minutos e se volta imediatamente ao trabalho. Mas jamais uma crise, de qualquer que seja a sua gravidade, traz modificação a este regulamento de vida. Esta regularidade junto à calma imperturbável de nosso chefe cria uma atmosfera benfazeja de confiança e serenidade e chama a atenção dos oficiais que nestes períodos movimentados trazem ao nosso Estado-Maior.”
Uma vez perguntaram a Santo Inácio de Loyola o que faria se o Papa dissolvesse a Companhia de Jesus. Ele disse: "Ao cabo de quinze minutos de oração diante do Santíssimo Sacramento, eu teria recobrado a paz". Quer dizer, completo domínio de si. Obra estraçalhada, vida escangalhada! Ao cabo de quinze minutos ele teria recobrado a paz e ia começar a servir a Igreja em qualquer outro lugar... e magnificamente, porque tudo quanto ele fazia era magnífico! Aqui é a mesma coisa. Serenidade, domínio de si.
“O Marechal Foch goza de um excelente apetite.”
É uma coisa também que não fica muito bonita, segundo os padrões errados. O bom guerreiro deveria comer pouco, conforme tais padrões. Aqui, ao contrário, é um bom gastrônomo! Manda vir um queijo camembert e compara com o queijo brie que Talleyrand considerava o melhor queijo do mundo. Discute a qualidade do pão, presta atenção na comida. Quando se levanta, vai acabar de dirigir a batalha, e de ganhar a guerra...!
Acho tudo isso magnífico de equilíbrio de primeira ordem!
* Importância, para um general, de ter uma boa conversa
“O general prescreve da refeição os assuntos de serviço...”
Quer dizer, não é permitido falar sobre o trabalho durante a refeição.
“...mas deixa muita liberdade à conversa se bem que nela não tolerando nem imoralidades, nem maledicências.”
Já disse que ele era católico fervoroso – nem maledicência; não se fala mal de ninguém à mesa. É um almoço sadio para a alma, como para o corpo. Tem as qualidades da refeição: é digno e substancial. Prosa digna e substanciosa.
“Sua verve...”
“verve”: talvez possamos dizer que é uma vitalidade de conversa por onde esta é, ao mesmo tempo, fácil, abundante, leve, substanciosa, proveitosa e entretida. Não é fácil ter verve... O Foch tinha verve entre dois apuros, carregando o mundo nas costas.
“Sua verve primaveril...”
Como de mocinho! Notem o lado interessante: a teoria das somas das idades. Um homem chegado à plena maturidade, mas que conversa como se estivesse na sua primavera. Isso é maturidade! Maturidade de olhos caídos, boca baixa, isso não é maturidade... Não vale dois caracóis! Isso é ruína! E maturidade e ruína são coisas bem diferentes. A gente sente a mocidade no homem maduro. E na mocidade a maturidade. É o elogio que Bossuet fez do marechal de Turenne. “Ele tinha, diz Bossuet, na mocidade o equilíbrio de um homem maduro e na maturidade, o fogo de um moço”.
“Sua verve primaveril a reanima se for necessário com uma palavra que reacende a conversa, pois ele conhece o lado pitoresco das pessoas e das coisas e a exprime de modo engraçado, muitas vezes de modo "goguenard", entretanto jamais malevolente.”
Vejam que Foch tem o dom do verdadeiro conversador, o qual não é tanto o que conversa o tempo inteiro, mas o que cria ambiente para que os outros se sintam à vontade para conversar. Fica prestando atenção e deixa a conversa correr... Quando a conversa está morrendo, diz algo que reacende a conversa. Esse homem, nos seus intervalos, mantém uma conversa agradável para seus subordinados, e mantém de um modo “goguenard” (jocoso, que diz coisas engraçadas, mas sem ferir ninguém).
Ponham-se no papel de um auxiliar do Mal. Foch, e que vai almoçar com ele, o qual está macambúzio, olha para um e outro, desconfiado, de vez em quando rabugento: "Essa comida não presta!" Os senhores sairiam animados da refeição? Sairiam na baixa.
Vão conversar com seu chefe no auge de uma batalha complicadíssima, e o encontram animado, brilhante, juvenil. Os senhores diriam: "Esse homem tem força! Ele aguenta o peso da coisa. Com ele acertamos o passo!" Não sairiam mais animados? Esse é o chefe à conta inteira! Diferente de Napoleão: sempre carrancudo, sempre procurando a quem roubar e trucidar e com cara de animal feroz.
Os senhores veem que eu não aprecio Napoleão... Apesar de seus talentos militares, eu o desprezo propriamente. Os senhores dirão que ele não perde nada com isso. Mas eu lucro em desprezá-lo, de maneira que meu negócio está feito, independente dele. Ele procede de uma linda ilha (Córsega), com muita gente de valor. Mas ele? Jamais!
O que é o “goguenard”? O francês revolucionário é crítico. Para quem entende bem a cabeça do francês, não é fácil estar na França... Eles se encontram com a gente, sempre muito polidos: "Senhor professor! Como vai passando? Sente-se..." etc. Mas os olhos são diferentes da boca, e a gente percebe o senso crítico que analisa, examina a gente de alto a baixo, percebendo os ridículos, os lados que não deviam ser, os lados que devem ser; às vezes também a inveja (francesa). Percebe-se tudo. Porque eles, que são tão superiores, às vezes têm um ponto para invejar.
Todos os homens têm coisas que os outros invejam. Um invejoso inveja tudo de todo mundo.
Percebe-se quando os franceses estão conversando e montando a crítica. E quando tiverem que falar mal, sabem como pulverizar. E assim falar mal... e é contando um fatinho. “Entre poire et fromage”, "entre a fruta e a sobremesa", como eles dizem, vai um fatinho... que arrasa! E a gente tem que ver como proceder, porque do contrário cai sob a lâmina deles.
A primeira coisa é não se deixar intimidar. A segunda é fingir que não percebe e que não liga: "Caçoe como caçoar, eu sou assim e, ou você me engole assim, ou você não me tem. Se você disser que não perde nada não me tendo, eu digo que continua assim; eu vou ser como sou! Me engula ou nos separemos. Eu me modificar? Não!" É ali! É o único jeito que tem.
Esse espírito revolucionário crítico transforma-se neles numa forma de rabugice. Porque se ficarmos prestando sempre atenção nos defeitos dos outros, sem verdadeiro amor de Deus, acabamos rabugentos. E eles muitas vezes ficam rabugentos. E essa rabugice às vezes se expressa num modo de brincar. Por exemplo: "O Foch está sequinho, magrinho, teso, assistindo a conversa". Eu garanto que todos aqui se intimidariam de conversar com o Foch depois de uma crítica que ele fizesse desse jeito.
Na conversa, um dá uma ideia qualquer, faz uma apreciação a respeito de Virgílio, por exemplo. Um clássico da literatura. Francês gosta muito de falar sobre os clássicos. Se alguém elogia Virgílio e esse francês está com má vontade para com quem o elogiou, diz: "É preciso esse elogio? Vamos afirmar agora que Virgílio era um deus? Ou o senhor divinizará Virgílio?” Aí vai o beliscão... Ou então, se o sujeito criticou Virgílio, ele diz: "E você pensa, meu caro amigo, que os mares do Virgílio estão muito perturbados com sua réplica?" Eu lhes garanto que isso é como pimenta na comida...
“...entretanto jamais malevolente”.
Quer dizer, jamais pegando defeitos graves. O verdadeiro “goguenard” não menciona os defeitos profundos para debicar.
“Nas horas graves nas quais é preciso menos do que nunca falar do que se preocupar, o menu do general serve de matéria um pouco artificial para manter essa vivacidade que nós nos esforçamos em introduzir.”
A frase é muito interessante:
“Nas horas graves, nas quais menos do que nunca se deve falar...”
Ou talvez, numa melhor tradução: “Nas horas graves, deve-se pensar muito, mas não se angustiar; e a conversa deve ser como se fosse numa hora leve”. Então, todo mundo, como não tem outro tema, conversa sobre o menu, sobre a refeição.
“As alusões clássicas sobre a detestável qualidade de sua cozinha e falta de imaginação de suas combinações culinárias evitam os silêncios por demais pesados.”
O alemão está quase varando a linha da defesa francesa, a coisa está quase perdida... Ele fala mal do cozinheiro. Mas, por comum acordo, não fala da batalha. Todo mundo está preocupado, mas ninguém conversa sobre o assunto.
“O excelente Ten. Poutal, que acumula essas funções com as de oficial de ordenança, sabe que valor dar a essas censuras e as aceita de boa mente.”
São censuras injustas e ele não dá importância; deixa ser espancado porque compreende que, tomando as pancadas nas costas, ajuda o General a ganhar a batalha. Cada um ajuda a seu modo... Vamos reconhecer que tem sua beleza!
“Depois do almoço, o general sobe um instante a seu quarto e, por volta da uma e meia, ele está no estado-maior.”
Não me lembro a que horas era esse almoço para medirmos mais ou menos quanto tempo Foch tomava de sesta. Mas os Srs. estão vendo que ele fazia sesta.
Eu queria que os senhores se colocassem na perspectiva dele. Quer dizer, o canhão troando ao longe, os exércitos do mundo inteiro se movimentando na maior guerra que tinha havido até então [I Guerra], e Foch tranquilamente se dirige ao andar de cima e vai fazer sua sesta. Seguro de seus planos, certo do que tem ou não tem que fazer, ele dorme tranquilo, e acorda capaz…
Tenho certeza de que a maior parte dos senhores teriam a ideia de que o verdadeiro general é aquele preso à mesa, agarrado, berra: “Você tem notícias? Eu preciso saber!” Manda um estafeta… quando chega, pula… Não, nada disso. Calma, serenidade…
Eu hoje, pela primeira vez – é uma pequena digressão… Não sei porque eu ando cheio de digressões, mas é uma pequena digressão. Eu hoje vi pela primeira vez uma frase (…) que, bem concebido um plano diplomático, qualquer homem deveria ser capaz de executá-lo. Ele queria se referir a “qualquer diplomata”, não a qualquer homem que anda pela rua.
Então, bem entendida e compreendida uma relação de situação entre países, de interesses, uma relação de objetivos etc., e que um diplomata trace o objetivo do seu país, o plano é fácil de executar. O que é difícil é entender o que é preciso fazer.
E aqui os senhores encontram a importância do pensamento como fator de direção da atividade humana. São Tomás de Aquino põe a elaboração de um plano dependente de três etapas: ver, julgar, agir.
É preciso primeiro “ver”, quer dizer, descrever uma situação, analisá-la, ver como são as relações entre os vários dados da situação. Depois, “julgar”: essa situação é atacável ou inatacável? Depois, “agir”.
O menos importante é o agir. Bem visto e bem julgado, a ação é mais fácil. A questão é ter tido uma noção clara, feita de boa descrição, boa análise, bom julgamento, a respeito de determinada situação. Agir depois fica fácil.
O Prof. Fernando Furquim foi aluno de um professor de matemática, famoso, chamado Luigi Fantappiè, italiano. Era um grande teorizador. Ele ia ao quadro negro e começava a fazer aqueles teoremas, ia tirando conclusões. Uma vez, um aluno perguntou: “Mas professor, tudo isso são conclusões que o senhor tira; mas e a demonstração? Onde está o fundamento de tudo isso?”
Ele olhou com desprezo e disse: “La dimostrazione qualunque bestia lo fa” [A demonstração, qualquer besta faz].
Enquanto eu viver, não me esquecerei dessa resposta… faz parte do fogo italiano. É evidentemente um exagero, mas um homem bem dotado, comum, faz as demonstrações. A questão é ter percebido a coisa, ter percebido o fim da coisa.
Assim também na arte militar. Foch era homem metodicíssimo, bem informado, bom analista das situações e bom julgador. O resto? Tem Estado Maior. O Estado Maior cumpre. Ele vai fazer sesta. Ele dirá: “Desencadeie a ofensiva da artilharia” ou “Recue até tal ponto”. Depois vai dormir…
Qual o trabalho dele? Ver e julgar, e escolher os que iam agir.
Não sei se os Srs. conhecem o sistema de Churchill para trabalhar durante a guerra. É a Segunda Guerra, não a Primeira. Mas era também um grande homem.
Churchill fazia o seguinte: levantava cedinho e ia para o Ministério do Exterior, conforme a ocupação que tinha, ou para o Departamento do Primeiro Ministro, e se punha deitado na cama, com uma toalha molhada amarrada na cabeça, no subsolo para ter certeza de que não caía nenhuma bomba. E lá, depois de ter-se levantado, começava a receber os despachos. Depois de ter dado ordem a todos os despachos da noite, ele dormia. E habitualmente dava uma palavra de ordem: “Exceto se os alemães desembarcarem na Inglaterra, não me acordem.” Depois ele acordava e, com o talento resplandecente dele, ia tocando a guerra. As coisas são assim…
Nas dificuldades, em todos os problemas que os senhores estejam, não comecem por agir e, portanto, não comecem por falar. Façam-se a seguinte pergunta: “Eu vi bem essa situação? Estou julgando bem essa situação?” Depois falem, depois intervenham. Do contrário, não adianta de nada. De passagem, são os ensinamentos que a vida de Foch pode nos proporcionar.
“Se alguma visita sobre o “front” não está prevista, esta é a hora do passeio a pé…”
Portanto, depois da sesta vai dar um passeio a pé. É verdadeiramente incrível, por exemplo, para o homem habituado a ver o corre-corre dos que trabalham em qualquer frenética megalópolis.
“…um tempo detestável, é o único fator que pode protelar este passeio.”
Protelar… Quer dizer, espera acabar a chuva ou o mau tempo e aí vai dar o passeio.
“Ele dura uma hora pelo menos e se faz sempre em pleno campo.”
Nada de passear dentro da cidade. Vai para o campo.
“Nestes passeios, o general leva consigo um companheiro, jamais dois, e é necessária uma circunstância particular para que este companheiro não seja seu chefe de estado-maior.”
É o Weigand. Ele, aqui, se valoriza… Quer dizer, é o grande homem com quem o grande Foch gostava de conversar. Está bem introduzido o papel dele no caso.
Como é o descanso de Foch? Aí os Srs. vão ver como é o trabalho de Foch. Todo mundo tem a ideia de Foch, por exemplo, pensando numa batalha: ele se senta junto a uma mesa, começa a pensar, pára de pensar, e depois descansa. Não. Ele vai pensando assim aos poucos; às vezes pensa continuadamente, e às vezes ficam aqueles planos na cabeça remoendo… De vez em quando ele acrescenta algo…
Os senhores sabem que os grandes pintores não pintam, em geral, os quadros de uma (só) vez. Por exemplo, senta e passa um mês pintando o quadro, depois deixa. Não é assim que faz um grande pintor. Os grandes pintores levam, às vezes, dez anos para pintar um quadro, vinte anos! Eles vão pintando vários quadros sucessivos, porque têm aquilo na cabeça. De repente vem a solução para tal problema: onde colocar o braço de tal personagem? Mais para cima, mais para baixo? Aí ele pinta aquilo. De repente vem outra solução: aquela posição da orelha estava bem coerente com a posição da cabeça? Volta e corrige. Assim vai tocando todos os seus quadros ao mesmo tempo.
Assim também nós maturamos os nossos planos na cabeça, maturamos as nossas ideias. Às vezes sentados e ruminando, mas às vezes – e isso é o mais precioso – pensando neles enquanto fazemos outras coisas, enquanto fazemos a barba estamos pensando, pensando, pensando…
Assim é que eu gostaria que um membro da TFP, um cooperador da TFP, ou um sócio da TFP tivesse seu espírito estruturado.
Então, vamos ver como passeava o Foch, para vermos se passeamos assim. É uma confrontação interessante.
“Quando o lugar de nossa residência é uma aldeia ou uma casa isolada, saímos a pé; quando é uma cidade pequena como Cassel ou Senlis, um automóvel nos leva para fora das casas ou numa floresta vizinha.”
É preciso notar que a floresta europeia em geral é composta de árvores plantadas e alinhadas em enormes filas, com uma vegetação agradável de se transpor. Não tem cobra, poça d’água, formigueiro que avança etc. Tudo é ingênuo, agradável, amável.
Os Srs. imaginem, então, a floresta europeia: grandes árvores alinhadas como soldados; as folhas que às vezes são mais bonitas no outono do que na primavera ou no verão, porque caem… e que são um verdadeiro tapete; adiante um riozinho que corre, faz ruído agradável; um pássaro que canta, e a gente passeia. É uma coisa feita para a gente pensar.
“…o general caminha através dos campos ou através dos bosques com o passo elástico característico dos habitantes dos Pirineus.”
É [área de] montanhas, não? Subida. Então, ficam elásticos.
“Ele se interessa por todas as coisas da natureza e da cultura.”
E a guerra está troando! Ele se interessa por todas as coisas da natureza e da cultura…
“Ele não perde uma só ocasião de se entreter com os cultivadores que encontra, a respeito do estado de suas colheitas, de suas esperanças e de suas dificuldades. Ele gosta, sobretudo, nas vésperas das operações ofensivas, de fazer-lhes falar um pouco das previsões do tempo, cuja influência pode ser tão grande sobre o valor de uma preparação de artilharia.”
Os Srs. estão vendo, portanto, ele vai passeando e encontra, digamos, um resto de ruína romana. Chama alguém que esteja por perto e pergunta. Mas se é um agricultor ele pergunta pelo tempo, para preparar a batalha. É um pêndulo entre a batalha que ele está preparando e o que ele está vendo. Continuamente.
No que ele não está pensando? Em si mesmo…
E é um dos defeitos das gerações que se seguiram a Foch: é pensar demais em si mesmas, ter a atenção demais voltada para si mesmas, fazer pose pensando: “Se um jornalista agora me fotografa, que impressão vai ter de mim? Vou andar de jeito ereto na floresta”. Não tem jornalista, não faz papel de bobo, não tem nada! Se tiver, também não tem importância. Cuide, isto sim, de pensar no que tem de pensar! Não tenha a mania de pensar em si, de pensar que cara fez, o que o outro achou, que cara vai fazer. Isso não tem importância! Isso um homem que tem dois dedos de bom senso pura e simplesmente não pensa. Ele pensa nos temas em que ele tem que pensar. Acabou-se. O resto degrada um homem, diminui um homem. Não é bom nem sequer para uma senhora, nem mesmo para uma senhora faceira. Não tem propósito!
“Na conversa, que jamais se arrasta ao longo do próprio passeio, o general aborda metodicamente todos os assuntos.”
Os Srs. estão vendo que é meio-passeio, meio-revista de temas com o chefe do Estado-Maior.
“Ele falar-me-á com maior confiança, à medida que me conhecer melhor, a respeito de sua infância, sua juventude, de sua família, de sua casa nos campos da Bretanha. Ele me interrogará também sobre o meu passado, sobre os meus, sobre os meus gestos.”
“É assim que o segui nos colégios das cidades onde a carreira administrativa de seu pai o conduziu, para chegar até o colégio de São Clemente de Metz.”
É o tal colégio dos jesuítas.
“É à volta destes passeios que eu, sem ter me encontrado com nenhum deles, travei conhecimento com todos os membros de sua família. Ele me falava muitas vezes de seu filho e me dava conselhos que foram preciosos para a educação dos meus.”
Não ficam pasmos de ver que é disso que fala Foch?
“Um assunto sobre o qual ele se alegrava em tratar era o de sua propriedade de Ploujean, na Finisterra. Ele adquiriu este solar vinte e cinco ou trinta anos antes, atraído para a Bretanha por Madame Foch, originária de Saint-Brieuc.”
Quer dizer que Madame Foch era bretã enquanto ele era gascão.
“A exceção das duas alamedas centenárias de tílias e de faias, os bosques não existiam ainda quando ele se tornara proprietário deste imóvel. Ele os tinha replantado e falava com amor dos bosques que começavam a crescer. Quando, depois da guerra, fiz minha primeira visita a Ploujean, não me espantei de nada. Conhecia já o que eu ia ver.”
Estão vendo o poder de descrição desse homem. Com que atenção ele contava tudo, quando tinha tão graves responsabilidades dentro da cabeça.
Aqui cabe um parêntese de caráter econômico.
Certa ocasião uma pessoa me dizia o seguinte: “Toda a propriedade vale o dinheiro que se der por ela e, portanto, o homem não é dono da propriedade, mas dono do dinheiro. Porque qualquer coisa está continuamente à venda. E se obtiver um preço bom, qualquer homem vende qualquer coisa.” E acrescentava: “Esse é, Dr. Plinio, o princípio fundamental do capitalismo.”
É um modo completamente errado de ver as coisas, porque há certas coisas que não se vendem.
Os Srs. estão vendo aí que essa propriedade Foch não ia vender, simplesmente porque há vinte e cinco anos atrás já vinha plantando ali, estavam crescendo as árvores que ele tinha plantado. E que ele via ali o seu próprio passado e sua própria história.
Se Foch não venderia essa propriedade nem por dez vezes o preço, os Srs. podem imaginar se o filho dele iria vender essa propriedade. Ele que ali tinha a possibilidade de conviver com as recordações do pai e de dizer aos amigos: “Você quer vir passar um fim de semana comigo na casa do Marechal Foch?“…
É uma dessas coisas que não tem preço! É falso que o dinheiro seja a medida de todas as coisas numa civilização verdadeira, embora os Srs. encontrem muita gente que pense isso.
Então eu digo: as pessoas que vendem tudo por dinheiro são pessoas que não valem nada. Porque têm valor as pessoas que fazem coisas que o dinheiro não compra. Esse é o princípio que não devemos perder de vista.
“Se, pelo contrário, uma visita a um Quartel General era prevista para a tarde…”
Eram naturalmente visitantes importantes: ministros, Primeiro-Ministro, Presidente da República, generais, marechais, almirantes de exércitos aliados, políticos, intelectuais etc.
“…o general passava rapidamente pelo Estado-maior para se assegurar de que nada o retinha lá e nós nos púnhamos a caminho imediatamente.”
Ele ia visitar alguma coisa.
“Eu o acompanho sempre; assisto a todas as suas conversas com os comandantes do exército, de corpos de exércitos ou de divisão.”
Que privilégio! Assistir a todas as conversas do Foch, e conversas essenciais da guerra!
“Em razão da extensão das frentes de combates, estes giros ocupavam mais ou menos toda a tarde. A palavra de ordem consistia em não perder tempo, nós íamos bem rapidamente, a oitenta quilômetros por hora…”
Naquele tempo era muito.
” …desde que o caminho o permitisse, velocidade boa para a época.”
Também não era uma velocidade de louco. Velocidade boa, apenas.
“O carro do General era uma notável Rolls-Royce…”
Os Srs. sabem que o Rolls-Royce é o melhor automóvel do mundo. É um automóvel de fabricação inglesa em que todas as peças são acabadas manualmente e que – fato digno de nota – se valoriza com o tempo. O Rolls-Royce mais antigo é o mais apreciado.
” …requisitada no começo da guerra no momento em que saía da usina. Destinada ao representante de uma grande firma alemã, sua construção tinha sido particularmente cuidada.”
Era um alemão que o tinha comprado e importado na França. Declarou-se guerra, os franceses deitaram a mão em cima.
“Uma viatura de socorro nos seguia sempre para fazer face ao risco de um distúrbio de longa duração.”
Quer dizer, no caso de haver uma pane na Rolls-Royce ele tinha outra viatura de emergência para continuar a sua viagem.
“No caso de um pequeno incidente ou de um pneumático a trocar, as equipes dos dois automóveis se punham no trabalho enquanto nós tomávamos a dianteira a pé. Estes mecânicos são tão hábeis e tão exercitados que raramente chegávamos a fazer um quilometro sem sermos alcançados.”
Coisa curiosa: ele não parava; não ficava sentado dentro do automóvel; ia andando a pé na frente e o automóvel alcançava depois. Aproveitava para fazer exercício.
“Durante estes trajetos, não há lugar, ao contrário do que acontecia com os passeios, para outros assuntos senão os de nossa tarefa.”
Estava em trabalho. Ia visitar o front, aí só se fala em trabalho. O resto passou a ser “conversa mole”.
“A recreação estava terminada. Ora o General pensa alto, ora fica silencioso longos momentos formulando uma questão, pedindo uma opinião ou reemergindo em suas meditações.”
Os Srs. estão vendo que Weigand não dirige a palavra ao Foch. É o Foch que fala com ele. Quando fala, ele responde. Mas o Foch está nas suas elucubrações.
Então, às vezes: “Como é tal coisa assim?” Weigand responde. Às vezes, trocam um pouco de ideias. Às vezes fica longamente quieto, e Weigand, naturalmente, olhando pelo canto dos olhos para ver se Foch precisava de qualquer coisa. E o automóvel, na velocidade impressionante no tempo dele, de oitenta à hora, correndo rumo ao campo de batalha. É uma bonita situação, os senhores hão de concordar.
“Nos dias em que nós não deixávamos o Quartel General, o trabalho era retomado depois do passeio, mas o general, mais do que de manhã, gostava de ficar só. É, aliás, o momento em que, no mais das vezes, os visitantes se apresentavam.”
“Mas jamais se escoa uma hora sem que eu não tenha de comparecer diante dele, seja a seu chamado, seja por minha própria iniciativa, para lhe apresentar um documento ou fazer um relato, pois ele exige ser posto ao corrente de tudo, imediatamente.”
Aconteceu, conte. Interrompa qualquer coisa e conte. O que é muitíssimo bem pensado!
“No fim do dia, o General recebe os oficiais de ligação que voltam das missões exteriores.”
Atraio apenas a atenção dos Srs. para esse ponto: a manhã é silenciosa, a tarde costuma ser mais silenciosa do que a manhã, quando não tem visita. Ver, julgar, agir, diante de mapas, fazendo planos. O resto, exageradíssimamente falando, “qualunque bestia lo fa”.
“A refeição noturna, fixada para as dezenove horas, interrompe o trabalho que se reinicia às vinte horas. É o momento em que começam a chegar dos exércitos os relatórios de fim de dia, ou em que o chefe do segundo “Bureau” vem apresentar ao general a síntese dos acontecimentos do dia.”
“Às vinte e três horas exatamente, uma vez dadas as ordens e estabelecidas as previsões para o dia seguinte, o general termina seu dia. Realizado o trabalho, ele faz seu repouso regularmente, nada vendo de útil em um ato de presença estéril.”
“Suas noites são sempre boas…”
Dorme sempre bem.
” …e podem ser encurtadas, como por exemplo, no começo da batalha de Ypres ou da ofensiva das bombas de gás.”
Podem ser encurtadas. O resto é calmo.
Devo dizer aqui uma coisa: cada povo, ou cada grupo de povos tem seu modo de ser. Para nossa ótica de brasileiros – não sei como para espanhóis, chilenos, venezuelanos etc., se deve considerar isso – é um pouco geométrico demais…
Interromper um trabalho quando está batendo onze horas, sou o primeiro a dizer que não saberia fazer. Porque se na minha cabeça não deram onze horas, no relógio pode dar o que quiser que a coisa não está feita. É preciso que um certo ciclo de serviço, ou uma certa zona do pensamento esteja preenchida, para poder ir dormir. Porque do contrário, de manhã eu não vou retomar as ideias como elas estavam à noite. Alguma coisa do esforço feito para levar a ideia à sua maturidade terá faltado.
Será uma fraqueza de minha memória? É muito possível, porque eu tenho má memória. Mas então seria preciso achar que os cento e dez milhões de brasileiros [à época desta conferência] têm memória fraca… Mas acho que é um modo de ser, e eu não sei como é em outros países.
“Antes de se retirar, o General entra em meu escritório e se dirige a mim, mais ou menos invariavelmente nestes termos: Boa noite, Weigand, vou deitar-me e convido-o a fazer o mesmo.”
“Invariavelmente também eu lhe desejava uma boa noite, respondia afirmativamente ao seu convite para ir deitar-me e me assentava novamente.”
“Pois esta era a hora espreitada por meus oficiais, aquela onde eu deveria lhes pertencer pelo tempo que eles tivessem necessidade, a fim de tratar das questões que não puderam ter sido tratadas durante o dia. É também o momento de pôr em dia o jornal de marcha.”
Que o militar cumpre.
Assim, cada povo tem seu modo de ser. E eu não sei se interpreto mal os meus compatriotas, mas eu creio que neste ponto somos todos os mesmos; à noite e a essa hora, terminado o serviço, vem a conversa que tem que durar mais ou menos uma hora, e em que sai mais ou menos de tudo.
Num tom leve, com um pouco de brincadeira saem notícias do dia, saem informações, saem coisa que a gente fica prestando atenção para ver o que aconteceu, o que não aconteceu, em que a gente tira também as suas conclusões, em que a gente desabafa um pouco e depois vai dormir.
Não sei se é assim com as gerações que seguiram à minha, e não sei como são os senhores.
Não sei se os Srs. conseguem se imaginar nessa situação: ao fim de um dia de trabalho, o que é melhor: ir diretamente dormir, ou conversar uma hora, por exemplo, tomando um cafezinho, ou bebendo alguma coisa. Mas a julgar pelas fisionomias, o entusiasmo pelo cafezinho e pela conversota de fim de noite, é indiscutível…
Mais uma vez, não sei como é em outros países… não me adianto, portanto…
“Creio que disse bastante a respeito do caráter essencialmente pessoal do meu comandante chefe, de sua atividade, de sua necessidade de contato direto com os homens, para que se apanhe o aspecto da vida bem regulada que acabo de traçar, como fundo de quadro de sua existência, como a parte que era conhecida somente pelos seus colaboradores imediatos, aquela cujo trabalho prepara um outro todo exterior.”
Então, essa é a parte do trabalho que prepara o trabalho exterior. A vida de um grande homem está na preparação, não está propriamente no trabalho.
“A todo momento, como se viu, o General foge deste quadro para ir fazer sua ação lá onde era necessário. Suas relações com os comandantes de exércitos ou corpos de exércitos são constantes.”
Quer dizer, relação constante com o pessoal que está na frente de batalha. Já se usava o telefone, o pombo correio etc., e estava informado constantemente.
“Nada, portanto, de menos sedentário, de menos burocrático, que sua existência de guerra. Jamais ele se julgou dispensado do ato pessoal pelo envio de uma instrução ou de uma ordem escrita. É a homens que ele comanda, como ele, que ele faz questão de combinar seus empreendimentos. Procura ter com eles os mais constantes contatos.”
Ele descreveu a vida sedentária desse homem, não descreveu a vida de ação.
De fato, Foch com frequência interrompe seu trabalho e os seus contatos com seus subordinados nas várias frentes de combate não são contatos apenas por bilhetinhos, contatos burocráticos. São, tanto quanto possível, pessoais, em que ele fala, dá a palavra de ordem, dá o estímulo, conhece o estado de espírito dos homens com quem ele trata.
Quer dizer, esse fundo que pode dar aos senhores a impressão de exageradamente burocrático, ou exageradamente de caserna, esse fundo se contrabalança com uma ação intensa, que ele não descreveu por que a história conta. Ele conta aqui o que a história habitual não conta. Onde Foch foi, em que dia esteve presente em tal batalha, isso tudo a história narra. Ele conta aqui o que a história não narra.
Creio que é aqui que termina essa parte. Exatamente.
Eu creio também que seria o caso de nós fazermos uma aplicação disso à vida do católico, do ultramontano. Porque essas são considerações de ordem natural, são puras considerações naturais: como é que se trabalha, como se faz etc. Nada disso é imediatamente inspirado na Revelação. Tudo isso é tirado do bom senso.
Na realidade, que relação se pode estabelecer disso com a doutrina católica e com a vocação que os senhores têm na TFP? Nós devemos, agora, tratar desse ponto.