A música sacra
Alexandre Augusto Tavares, 22/5/2022
· Música ·
Adorar cantando
Sabe-se que os anjos e bem-aventurados do Céu cantam para expressar sua adoração a Deus. Daí se dizer que os anjos pertencem a níveis hierárquicos chamados coros.
E aqui na terra as Escrituras – em especial os Salmos – nos incentivam a entoar cânticos para louvar a Deus.
“Quem canta reza duas vezes”, diz o provérbio.
A música sacra, cantada com a devida piedade e compenetração, tem o poder de introduzir o cantor (e o ouvinte) no Coração de Deus.
O estilo sacro católico
A palavra sacra é uma variação de “sagrada”, o mesmo que consagrada, dedicada, entregue, devotada (a Deus). Em oposição à música profana (não sagrada), a música sacra está diretamente ligada ao culto litúrgico religioso. A música sacra por excelência é o canto gregoriano, nascido na Igreja Católica e adotado como seu estilo de canto oficial.
Seu nome (gregoriano) se deve a seu primeiro compilador, São Gregório Magno, Papa e Doutor da igreja no sexto século da era cristã.
É de se destacar aqui o ensinamento do Papa São Pio X: “(...) considera-se o canto gregoriano, de certo modo, como o mais elevado ideal da música sacra, de maneira que, com razão, pode-se afirmar como geralmente válida a seguinte regra: uma obra musical apropriada para o uso religioso será tanto mais sagrada e litúrgica, quanto mais, por sua posição, espírito e irradiação, aproximar-se do ‘melos’ [estilo melódico] gregoriano. Pelo contrário, será menos adequada ao serviço divino quanto mais afastar-se desse modelo.” (Motu proprio Codex musicae sacrae juridicus.)
O canto gregoriano é homofônico, isto é, possui uma única voz. Já o canto polifônico (com várias vozes) surgiu na liturgia católica como riquíssimo desdobramento do canto gregoriano. As primeiras composições da polifonia sacra ─ também conhecida por polifonia clássica ─ datam do século IX, e seu auge se deu pelo fim do século XV.
Ambos os estilos (gregoriano e polifônico) são considerados estilos oficiais do canto sacro católico, os mais apropriados para a liturgia e o culto divino.
Tolerado inicialmente como manifestação ‘inofensiva’ de culturas locais, um estilo que poderíamos chamar de popular religioso pós-moderno tornou-se hoje o mais usado, dominante na maioria das paróquias católicas ocidentais, não obstante ser incapaz de alcançar a sacralidade do canto oficial. Mas é lamentável que a música católica esteja absorvendo mais e mais estilos profanos, como os de caráter romântico, com melodias e ritmos que, além de inadequados em si, propiciam interpretações sensuais e melosas.
Contudo, para resguardar sua integridade e pureza de costumes, a Igreja sempre se preocupou com a música. Por exemplo, “o concílio de Trento sabiamente proibiu ‘as músicas em que, ou no órgão ou no canto, se mistura algo de sensual e de impuro’ (Pio XII, encíclica Musicæ Sacræ Disciplina).”
Mas em nossos dias encontra-se tão desbotado o senso moral, que a grande maioria das pessoas não conseguem enxergar o “impuro” e o “sensual” no estilo popular. Pelo contrário, dança-se, gesticula-se e absorvem-se tais ritmos e melodias como se estivesse degustando um prato delicioso. Atitude que, sem embargo, não releva a perversidade do estilo, pois a verdade é sempre verdadeira em si, independente do julgamento que lhe imprimam as mentes libertinas.
Fonte de paz e equilíbrio corporal
O som do gregoriano e da polifonia religiosa são próprios a acalmar o espírito do homem, tão agitado pelos hábitos da modernidade. Pressa, ansiedade, medo, irritação... são conceitos ausentes no estilo.
No caso de estarmos “desajustados”, o contato com a essa arte nos trará certo desconforto, pelo “choque” das vibrações contrárias. Neste sentido, polifonia e gregoriano podem servir como parâmetros de equilíbrio. Cantar ou ouvir a música sacra exerce sobre nós uma boa influência, mexendo com a nossa química, atraindo-nos ao equilíbrio.
Fonte de paz e equilíbrio psicológico
A música sacra é ortopsíquica: ordena, pacifica e equilibra a mente, como uma medicação corretiva ou preventiva. “Procura manter a tua alma no estado de espírito do gregoriano, e terás encontrado um caminho certo para tua santificação.” (Plinio Corrêa de Oliveira, in Liber Cantualis, 1ª Ed., 1988.)
Na junção dos estilos gregoriano e polifônico temos uma fonte riquíssima de ordenação do espírito humano, tanto para quem ouve quanto para quem interpreta.
O andamento sereno, modesto e forte da melodia gregoriana transmite uma sacralidade própria a gerar paz e equilíbrio. Sem agitação, sem pressa, mas com força e determinação, entrega a Deus um louvor respeitoso e confiante. Sua simplicidade pode inicialmente fastidiar o homem irrequieto moderno, mas basta deixar-se influenciar e envolver por ela, para logo enxergar uma misteriosa riqueza que se conecta ao Céu.
Por sua vez, a exuberância harmônica da polifonia consegue traduzir mistérios que o gregoriano apenas enuncia, sem interpretar.
E assim, a música sacra está à altura de revesar-se com o sacro silêncio reinante nas almas que realmente buscam a Deus.
Dentre as composições clássicas mais belas, não é raro encontrar mesclados gregoriano e polifonia. É o caso, por exemplo, do Miserere mei do italiano Gregorio Allegri (século XVII):
Um grupo musical que pratique esse estilo sacro dificilmente conseguirá avaliar a importância e abrangência do bem que faz a si mesmo e a quem o ouve. Mas quanto mais o homem moderno avança no progresso, na ciência e na tecnologia, mais aversão vai tendo a essas práticas piedosas.
Expressão da virtude
Superar a mera vibração sonora, física e matemática, adentrando num sentido mais profundo do texto e da melodia, onde o humano toca em Deus, constitui uma arte transcendente que torna angélica a beleza terrena do canto. E assim, ao expressar-se devotamente pela interpretação musical, o fiel faz muito mais que emitir sons agradáveis: ele se conecta com Deus, num ato de piedade, de humildade, temperança, prudência, força e das demais virtudes que ornam a santidade.