A missa tridentina
História · Alexandre A. Tavares
Revista Por Ali, nº 6, 02/02/2016
A missa é a renovação da Paixão de Cristo, porém sem derramamento de sangue. Não se trata de um “novo” sacrifício, mas daquele “mesmo”, trazido ao presente e renovado pela celebração.
Nela também se opera sacramentalmente a conversão das substâncias, que, de pão e vinho, tornam-se Jesus. Para a realização destes dois milagres, foi estabelecido
desde o inicio do cristianismo, um ritual apropriado.
Em 1570 o Papa São Pio V publicou o Missal Romano, que ratificava o ritual da missa em função da tradição, também com vistas a evitar que tendências protestantes influenciassem a liturgia. Este rito ficou conhecido como tridentino, porque o concílio que o estabeleceu se realizou em Trento, na Itália.
Quatro séculos depois, em 1962, o Papa João XXIII confirmou e reeditou o Missal. Mas naquele mesmo ano teve inicio o Segundo Concílio Vaticano, que revisou o rito da missa e introduziu-lhe modificações que foram publicadas em 1969 pelo Papa Paulo VI.
Esta edição modificada do Missal, aplicada ao rito latino, encontra até nossos dias resistência por parte de grupos tradicionalistas e antimodernistas.
Particularmente, acredito que a missa em idioma vernáculo pode aumentar favoravelmente a interação dos fiéis com o mistério celebrado, desde que se mantenha total fidelidade ao texto original. Vejo igualmente com bons olhos o enriquecimento da liturgia com a criação dos anos A, B e C, introduzindo mais trechos bíblicos.
Contudo, tais mudanças acarretaram diversas outras ao longo dos últimos anos, chegando-se à chamada Missa Nova ou Missa de Paulo VI, contendo alterações como estas:
O sacerdote, que celebrava a maior parte da missa voltado para o crucifixo e para o sacrário (versus Deum), passou a celebrá-la voltado para a assembleia (versus populum);
O latim, língua oficial da Igreja Católica, foi traduzido para idiomas locais, dando margem a interpretações diversificadas e nem sempre fiéis aos textos latinos, que por sua precisão semântica mantinham intacta a doutrina expressa;
Criação do Novus Ordo, que adapta termos, antes consagrados, para uma linguagem atual e ecumênica, permitindo uma leitura diferente da missa, amplamente explorada por teólogos de tendência protestante;
As respostas litúrgicas vocalizadas pelos acólitos, bem como os cânticos do coral, passaram a ser participados pela assembleia;
As mulheres passaram a ter parte ativa na liturgia, podendo fazer leituras, acolitar e ministrar a comunhão.
Influenciadas por estas mudanças, igrejas locais, que antes mantinham-se unificadas, passaram a ter uma identidade mais variável, o que diversificou não apenas a própria liturgia, mas também costumes dos sacerdotes e dos fiéis.
Daí outros novos costumes, marcadamente no Brasil:
A Comunhão deixou de ser recebida na boca e de joelhos pelo fiel, que passou a recebê-la de pé e em suas próprias mãos;
A substituição da batina sacerdotal pelo clergyman ou uma roupa comum, que não se distingue daquela usada pelos leigos;
Substituição da tonsura (um corte de cabelo distintivo do sacerdote) pela ordenação diaconal;
Homens e mulheres passaram a se misturar nos assentos da assembleia, e as mulheres abandonaram os véus; trajes inapropriados começaram a desfilar pelas igrejas;
O canto gregoriano e a polifonia sacra, antes acompanhados somente pelo órgão, deram lugar a outros estilos musicais e a introdução de diversos instrumentos, acompanhados por palmas, gestos e até danças.
Todas estas modificações encontram ainda resistência por parte de clérigos e leigos amantes do estilo tradicional. E, diante dessa oposição — que em nossos dias parece estar em crescimento —, o Papa Bento XVI publicou em 2007 a carta Summorum Pontificum, que restabelece o uso da missa e dos sacramentos no rito
tridentino, quando requisitados por um grupo de fiéis.
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