A menina que lia
Alexandre Augusto Tavares, 27/3/2024
· Fábula ·
Macau, verão de 1999.
Estava o Sr. Angel indo de carro para casa, quando parou num semáforo vermelho. Havia ali uns mendigos abordando os motoristas. Subitamente aproximou-se uma menina, de pele alva e traços finos, toda delicada. Não parecia ser do grupo dos pedintes. Parou em frete à janela do motorista, sem nada dizer.
Angel então abaixou o vidro e lhe perguntou: “Queres algo?” Ela, timidamente, assentiu com a cabeça.
─ Do que precisas?
─ Comer...
Angel tirou do bolso a carteira e deu-lhe uma nota grande. A menina arregalou os olhos e, sem palavras, recebeu o dinheiro lacrimejando de gratidão.
Percebendo a emoção da menina, Angel se comoveu e seu coração encheu-se de compaixão. Neste momento ouviu a buzina do carro de trás, alertando que o farol já estava aberto. Enquanto saía apressado, olhou uma vez mais par a menina que, sorrindo, acenou-lhe com a mão.
Dias depois, passou novamente por aquela avenida e, sem parar o automóvel, viu, sentada num banco da praça, a mesma menina. Parecia totalmente absorta na leitura de um livro.
E, a partir de então, toda vez que passava por ali, os olhos de Angel procuravam instintivamente a menina. Mas já fazia meses que não a via. Talvez fosse uma estrangeira, apenas de passagem por Macau...
Num dia chuvoso de inverno, Angel parou distraído no semáforo da praça, e assustou-se quando alguém bateu no vidro embaçado do carro. Logo pensou que fosse a menina e abriu rapidamente. Sim, era ela, que se surpreendeu ao ver o rosto de Angel, lembrando-se da ajuda que lhe dera.
A jovem estava molhada e trêmula de frio. Sem pensar, Angel disse: “Entra aqui!” Percebendo que o farol ia abrir, a moça correu para a outra porta do carro e entrou. Logo à frente, Angel estacionou o carro e lhe disse: “Vou te dar um dinheiro e te levar para a tua casa, tá bem?”
─ Senhor, agradeço pelo dinheiro, mas não tenho casa.
─ Não tens?! Onde dormes?
─ De vez em quando a dona daquele sebo (do outro lado da praça) me deixava descansar lá. Mas já tem uma semana que ela viajou, e agora estou me abrigando na Igreja São Lourenço. Eu vou à missa da noite, me escondo na torre antes de fecharem, e fico lá até abrirem de manhã.
Angel ficou incomodado com a situação da jovem, e disse:
─ Como te chamas?
─ Leksa.
─ Prazer, eu sou Angel. Tuas coisas estão na igreja?
─ Não. Eu tinha uma mochila no quartinho do sebo, com mais um vestido, um pente e um cobertorzinho. Mas ficou lá trancada quando a dona viajou.
─ Bem, Leksa, não sei ainda o que posso fazer por ti...
E olhando para Leksa ainda encolhida de frio, perguntou:
─ Você tem quantos anos?
─ 20.
─ E teus pais?
─ Não sei quem é meu pai. E minha mãe morreu já tem três anos. Éramos sozinhas, sem mais parentes.
─ Nossa, que situação! Uhmm... Posso te levar agora para a minha casa, enquanto penso no que fazer?
─ Senhor, eu não quero incomodar... Sua família pode estranhar.
─ Sem problema. Não posso te deixar assim molhada e no frio. Eu moro sozinho, e uma empregada fica lá durante o dia.
─ Muito obrigada, Senhor!
Entrando na casa, Angel apresentou Leksa à empregada:
─ Rose, esta é Leksa. Ela estava pedindo ajuda no farol. Vive sozinha e não tem casa. Terias aí alguma roupa para ela se banhar e trocar?
Rose: ─ Tenho no quartinho umas roupas que deixo aqui. Mas se não servir, vou ali em casa e pego algumas das minhas filhas.
Angel: ─ Ela vai dormir no quarto de hóspede. Amanhã eu procuro um lugar para ela ficar.
Leksa, que costumava se banhar no rio da cidade, tomou agora um banho quente prolongado e vestiu-se com as roupas que Rose lhe trouxera.
Rose: ─ Leksa, o almoço está servido. O Sr. Angel já comeu e voltou ao trabalho. Deixou-te este dinheiro, para se precisares algo. Também me pediu para te acompanhar a uma loja e comprarmos umas roupas.
Leksa: ─ Nossa, mas isso não é necessário!
Rose: ─ Ah, é sim! O Sr. Angel é uma pessoa boa e generosa. Não vai sossegar enquanto não te deixar bem. Pega aqui a tua comida, senão vai esfriar!
Após almoçarem, saíram as duas para as compras.
Na volta, Leksa deitou-se um instante na cama de hóspede e, de tão cansada, caiu num sono profundo.
No fim da tarde, quando Rose já tinha saído, chegou Angel. Leksa despertou assustada, ao ouvir Angel perguntar: “Alguém por aqui...?”
Levantou-se, lavou rapidamente o rosto e foi para a sala:
─ Ô, Sr. Angel, eu deitei na cama pra descansar um minuto e acordei agora, duas horas depois...
─ Ahahah! Ótimo que tenhas repousado, tua cara está melhor agora!
─ Nossa, parece que dormi uma noite inteira...
─ Bem, vamos esquentar o jantar que a Rose deixou.
─ Ah, deixa que eu faço isso.
Durante o jantar:
Leksa: ─ O senhor nasceu aqui?
Angel: ─ Não, eu sou do Brasil. Vim para cá quando minha esposa faleceu, já faz vinte anos. Tua idade! Fiquei um tanto deprimido na época, e decidi sair daquele ambiente. Ela era bem religiosa, íamos à igreja quase todo dia. Mas depois que vim para cá, sem ela, eu esfriei um tanto na fé...
Leksa: ─ Ah, também minha mãe era boa católica, vivia querendo ajudar todo mundo, mesmo sendo tão pobre. Teve um cancro no fígado, e morreu um mês depois de saber. E eu herdei a fé dela. Não é só para me abrigar que vou à igreja: eu gosto mesmo da missa. Eu até estava pensando em falar com o padre, para ver se ele me consegue uma hospedagem em alguma casa de caridade.
Angel: ─ Estou notando que falas com muita correção, teu vocabulário é rico!
Leksa: ─ É porque minha mãe era professora de português. Desde que eu nasci ela falava em português comigo, o tempo todo. E na escola aprendi o mandarim, o cantonês e o inglês. Sempre me empenhei em ser boa aluna e ter notas boas. Também a dona do sebo é brasileira. Tem lá muitos livros em português. Ela me deixava pegar quais eu quisesse.
Angel: ─ Um dia eu passei na praça e te vi lendo ali. Bem, mas isso explica, então, a correção no teu falar.
Leksa: ─ São duas as paixões da minha vida: ler e a minha fé.
Angel: ─ Também gosto de ler, de me informar. Minha fé... não sei... Acredito em Deus, mas acho que ele não é exatamente como os homens o pintam. Mas se te agrada ler, olha ali quantos livros tenho. Pega o que quiser. Qual é teu tema preferido?
Leksa: ─ Leio muito sobre psicologia. Se eu puder, um dia vou ser psicóloga. Aliás, já que o senhor mencionou, li recentemente um psicólogo que falava sobre como as pessoas veem Jesus segundo os seus próprios parâmetros, enxergando-o apenas no limite de sua curta visão. Talvez seja a isso que o senhor se referia quando disse que “pintam” Deus como Ele não é.
Angel: ─ Sim. Acho que Deus não se deixa conhecer tão facilmente, que suas verdades são mistérios que ele não fica revelando facilmente aos homens.
Leksa: ─ Bem, eu me sino satisfeita com as verdades reveladas por Jesus. Os evangelhos me preenchem, me bastam, alimentam minha fé.
Angel: ─ A questão é: como ter certeza de que o evangelho conta exatamente o que Jesus disse?
Leksa: ─ Não sei muito de religião, Sr. Angel, mas acho que os fatos narrados sobre a vida de Jesus dificilmente poderiam ser inventados. Quem poderia ter a ideia de ser perseguido, caluniado, preso, açoitado, humilhado, injustamente condenado e morrer numa cruz, senão um homem divino? E com tantas profecias antigas falando das coisas que Jesus realizou... Eu tomo o conjunto da bíblia como sendo para mim o fundamento da verdade. Aliás, o próprio Jesus disse “eu sou o caminho, a verdade e a vida”.
Angel: ─ Sim, já pensei nisso. E também no fato de ele ter criado uma igreja dizendo que o mal não prevaleceria contra ela e, de fato, essa igreja ter sobrevivido até nossos dias, mesmo com tanta perseguição... Pois é, parece lógico acreditar em Jesus e na Igreja, mas... sinto-me um tanto coagido em minha liberdade, sendo como que obrigado a acreditar, a seguir, a mudar meu comportamento. E tem coisas que não entendo. Por exemplo, minha esposa sofreu tanto antes de morrer, e sempre foi uma pessoa ótima, doce, caridosa, nunca fez mal a ninguém...
Leksa: ─ Eu não me lembro bem onde li uma explicação sobre isso... Hummm... Acho que foi nas revelações de Jesus a Santa Brígida. Ah, sim! O padre comentou as revelações num sermão. Ele dava vários motivos par explicar a dor, não sei se vou me lembrar de todos. A ideia geral é que nada acontece no universo sem uma razão, mas que não convém ao homem conhecer e dominar essa ciência. Jesus disse a Santa Brígida que mesmo o mais abjeto e minúsculo dos vermes tem uma razão de existir, seja em virtude do equilíbrio da natureza, seja pelos pecados dos homens, seja por planos divinos ocultos ao nosso entendimento. Se conhecêssemos as causas das doenças e dos sofrimentos humanos, trabalharíamos ainda mais para evitá-los. Ora, não nos convém ter este domínio, porque nos sentiríamos orgulhosos, com poderes divinos; porque permitiríamos uma vida de mais comodidade, que por sua vez levaria a humanidade a desprezar ainda mais a gravidade do pecado e se perder eternamente. A dor inexplicável é um ato de bondade da parte de Deus, que impõe respeito e diminui os crimes da humanidade. O padre dizia que quando Pedro quis evitar a Paixão de Cristo, Jesus o chamou de Satanás. E assim, se aliviássemos o sofrimento de quem precisa dele para não se perder, estaríamos fazendo a vontade do demônio, que teria interesse em perder aquela alma pela comodidade, pela vida fácil e pelos prazeres. Outras vezes ainda, o sofrimento de uma pessoa faz bem a todos os que cuidam dela, e funciona como barreira aos seu amor mundano. O mais importante é que Deus mede cada dorzinha nossa, cada microssofrimento que temos, e vai anotando tudo no Livro da Vida, para nos recompensar com toda justiça, seja no Céu, seja ainda nesta vida, como fez ao seu servo fiel Jó. Acho que tinha ainda outras razões, mas eu não me lembro.
Angel: ─ Nossa, Leksa, você é uma moça muito inteligente! Estou surpreso. Vocabulário abundante, correção no falar, ótima memória, ótimo raciocínio, uma fé admirável... Ah, e uma excelente psicóloga, viu? Mesmo! Estou me sentindo edificado e reconfortado. Pensei que estivesse te ajudando, quando, na verdade, és tu que me ajudaste!
Leksa: ─ Não, não, Sr. Angel! Sou eu que agradeço a sua bondade em me receber aqui. Hoje, quando eu estava lá na chuva, molhada, com frio, com fome... pensei: “Ah, se eu tivesse uma casa, uma comidinha, uma cama e umas roupas quentinhas...!” Mas, em seguida me veio a ideia: “Nada disso! Se estou nesta situação é porque Deus permitiu e é bom para mim. Afinal, tenho boa saúde para aguentar, e bom ânimo para reconhecer que sofrer nesta vida pode me fazer muito bem espiritual. O Céu me espera com recompensas que valerão muito a pena.” E logo que terminei de pensar assim, vi o seu carro parando, que eu memorizei na primeira vez o senhor me ajudou. Mas como o vidro estava embaçado, fiquei na dúvida se era mesmo o senhor. Corri lá e bati no vidro. Quando o senhor abriu e me chamou, entendi que Deus estava cuidando de mim e atendendo às minhas preces, só porque eu aceitei as provações que Ele me mandou.
Angel: ─ Estou realmente admirado contigo, Leksa. Gostaria a que Rose estivesse aqui para ouvir tudo o que disseste, porque ela também tem lá suas crises de fé. Bem, amei a conversa, mas já está na hora de me recolher. Fica à vontade. Amanhã cedo não trabalho, e vou atrás de um lugar para ti.
Leksa: ─ Mais uma vez, muitíssimo obrigada! Eu vou lavar a louça e em seguida também vou descansar.
Na manhã seguinte o Sr. Angel conseguiu uma vaga para Leksa numa instituição de caridade. E durante o almoço lhe explicou:
─ É uma casa que recebe imigrantes. Podes ficar lá em troca de algum serviço que a freira encarregada vai te explicar. Outra coisa: estive pensando que não seria tão difícil para mim pagar-te uma faculdade. Queres fazer psicologia, não é?
Leksa: ─ Meu Deus! Sim, é meu sonho! O senhor é um anjo que Deus me enviou!
Angel: ─ Como disseste ontem, nada acontece por acaso: também não é por nada que me chamo Angel... Ahahah!
Leksa: ─ É mesmo!