A lógica do sofrimento
Alexandre Augusto Tavares, 26/5/25
· Apologética ·
Ao criar o homem, Deus teve um único objetivo: fazê-lo participar de sua eterna felicidade. Para isso, deveria o homem ser configurado para receber tal dádiva, deveria ser compatível com o próprio Deus, a fim de receber uma glória que faz parte da essência divina. Por isso Deus o fez “à sua imagem e semelhança”, com inteligência, sensibilidade e vontade.
Ora, esta configuração de inteligência sensível e volitiva, indispensável para que nos seja possível gozar da felicidade do próprio Deus, é necessariamente livre. Assim, como destacou o Apóstolo, “tudo nos é permitido”, mas “nem tudo nos convém”.
A liberdade humana é o meio ─ necessário ─ de obtermos o prêmio do Céu, para o qual Deus nos criou. “Deus, que nos criou sem nós, não pode salvar-nos sem nós”, ou seja, sem a decisão livre da nossa vontade.
Santo Agostinho.
O fato é que, sendo semelhante a Deus, mas não sendo Deus, o homem usou mal a sua liberdade, desde o início. Já nossos primeiros pais optaram por desobedecer a Deus, em vez de servi-Lo. E assim fomos privados do prêmio que nos estava reservado: entrar no Céu.
Mas Deus, em sua imensa bondade, deu uma solução divina para nossa vontade defeituosa: na Pessoa do Filho, encarnou-se e se fez homem como nós, para dar-nos o exemplo de como o homem deve usar sua vontade. E Cristo, como Redentor e Reparador do pecado, deu-nos o exemplo de abnegação, de renúncia da sua vontade própria, para fazer em tudo a vontade do Pai, sendo-lhe obediente até à morte e morte de cruz.
Jesus nos mostrou a verdadeira dimensão da virtude e do amor a Deus, cuja extrema perfeição consistiu em entregar, da forma mais humilhante e dolorosa, a sua própria vida, para obter a plenitude da glória no Paraíso, e para permitir que também nós a conquistássemos: Exemplum dedi vobis (“Eu vos dei o exemplo”).
E foi seguindo este divino exemplo que, até nossos dias, muitos cristão entregam sua vida por Deus, pois “quem ama sua vida a perderá; mas quem entrega sua vida por meu amor, esse terá a vida eterna”.
Realmente, não é neste Vale de Lágrimas que devemos buscar a felicidade, mas na vida após a morte.
Lindo é ver esse princípio movendo o coração dos mártires; dos ascetas; dos eremitas que se recolhem no deserto; dos religiosos que se fecham na clausura; dos consagrados que se põem ao serviço divino, seja como diáconos, sacerdotes ou leigos; e de todos aqueles que dobram a sua vontade própria, morrendo para os prazeres oferecidos pelo demônio, pelo mundo e pela carne, a fim de imitar o divino exemplo do Salvador, e assim conquistar a plenitude da felicidade que lhes está reservada no Céu!
Assim entendido, o sofrimento não é um mal, mas apenas um caminho para a glória: per crucem ad lucem (“pela cruz à luz”).
Está, pois, na lógica mais entranhada da nossa existência, o sofrer voluntariamente nesta terra, para termos a liberdade eterna de participarmos da Glória divina.
A vida é curta e passageira. Nenhum sofrimento deste mundo, por mais cruel e injusto que pareça, tem proporção com a felicidade celeste: tudo é palha que se desfaz no fogo.
Nesta lógica é que se compreendem aquelas palavras de Jesus: “Se tua mão ou teu pé te fazem cair em pecado, corta-os e lança-os longe de ti: é melhor para ti entrares na vida coxo ou manco que, tendo dois pés e duas mãos, seres lançado no fogo eterno. Se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança-o longe de ti: é melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena.”
Não é possível rejeitar a glória que Deus nos oferece no Céu (o que é rejeitar o próprio Deus), sem receber ─ após a prova ─ a paga de tão grande rejeição. É por isso que, mesmo sendo terríveis os sofrimentos do Inferno, eles nunca terão proporção (em sentido contrário) comparável à bem-aventurança celeste. Pois a glória rejeitada tem proporções divinas, enquanto que o castigo para tal rejeição é limitado, é ausência de felicidade, o que de si não podem sequer comparar-se à infinitude positiva.
Eis a razão pela qual Jesus se entregou com tanta decisão e radicalidade à sua Paixão e Morte; eis a razão pela qual a Virgem Santíssima consentiu na morte de seu divino Filho, participando Ela mesma de suas dores; eis o motivo que animou os mártires a desprezarem sua vida e se entregarem com alegria a terríveis penas.
Sim, morrer como os mártires é sublime, causa-nos uma santa inveja. Mas derramar o sangue do corpo por amor a Deus não é a única forma de martírio. Pois tomar a sua cruz e seguir Jesus nem sempre é cruento. Na verdade, levar uma vida de renúncia às propostas do demônio, de rompimento com o mundo, e de rejeição da sensualidade é um martírio. Dobrar sua própria vontade para servir a Deus é martirizar-se. Daí chamar a Igreja de mortificação a prática de rejeitar ao amor-próprio em benefício da vontade de Deus.
Cabe aqui um exame da nossa consciência: até que ponto estou no caminho do Céu? Em que grau de entrega encontra-se minha alma? Amo a Deus acima de todas as coisas? Ou amo-me a mim mesmo, às minhas comodidades, aos meus costumes cheios de complacências e admiração pelo mundo? Quanto da minha vontade está entregue a Deus? E, pelo contrário, quanto dela está eivada de relativismo, de comodismo, de conivência com o pecado, de desejo de prazeres e deleites desta vida? Até que ponto minha vontade é realmente de Deus?
Se eu morresse hoje, em que estado me encontro? Amo a Deus acima de mim mesmo? Ou me amo mais que a Deus? Sou digno do Céu? Lutei por ele? Entreguei o que para conquistá-lo? Estou configurado segundo o exemplo de Cristo?
Beijei minha cruz e a carreguei com alegria? Ou vivo comodamente sorrindo para a tentação, contemplando-a, sonhando romanticamente com ela, às vezes me aproximando e lhe fazendo um carinho, dançando com ela, dando-lhe um beijinho...?
Que Deus tenha pena de mim, pecador, e me ilumine com a luz de seu divino Espírito Santo, a fim de que eu me converta, de que eu me decida radical e incondicionalmente a entregar tudo por amor ao meu doce e generoso Criador!
Que as lágrimas de Maria e o Sangue Preciosíssimo de Cristo lavem o meu pecado e me encham de força para carregar decididamente minha cruz, e alcançar assim a plenitude da glória que Deus me reservou desde toda a eternidade! Amém.