A influência da velocidade no homem
Alexandre Augusto Tavares, 13/2/2021
· Filosofia ·
O ser humano possui duas vontades: a racional (consciente) e a instintiva (subconsciente). A racional é livre e se move conforme nosso livre arbítrio; a instintiva é passiva, como uma programação automática. Esta última possui padrões universais, que provocam em nós reações espontâneas (quase inconscientes), mas também pode ser alterada pelos registros da memória, o que lhe acrescenta ou retira padrões.
Por exemplo: o instinto de conservação, para a preservação da nossa vida; o instinto sexual, para promover a multiplicação da espécie e evitar a extinção; o instinto materno, para a proteger a debilidade das crianças; o instinto de sociabilidade, para nos manter unidos e interagindo, o que promove o conhecimento e a proteção da espécie. Note-se que a maioria desses instintos estão presentes também no mundo animal, o que lhes confere reações espontâneas inconscientes, semelhantes a uma inteligência. A diferença é que no ser humano, embora essa programação seja subconsciente, ela pode ser detectada e alterada pela inteligência racional, enquanto que no animal (que não possui razão) ela é uma reação inconsciente, só passiva, que não pode ser detectada nem alterada internamente.
Ou seja, a memória guarda ou modifica padrões reativos comportamentais, conforme às experiências que vivemos.
Assim, todo evento externo captado por nossos cinco sentidos influencia nossos pensamentos, desejos e atitudes. Nossa vontade instintiva é continuamente estimulada pelo que vemos, ouvimos e pelo que sentimos através do ofato, paladar e tato. Tudo o que entra pelos sentidos ativa reações das potências da alma (inteligência, vontade e sensibilidade), provocando registros na memória, que confirmam ou modificam padrões comportamentais.
Esses registros da memória são geralmente gravados de forma subconsciente (despercebida), mas é possível dar-lhes certo direcionamento, se os eventos forem observados e conscientemente “digeridos”. Deste modo, uma pessoa equilibrada e virtuosa mantém-se atenta a todos os eventos (externos e internos), a fim de não ser por eles influenciada negativa e despercebidamente. Certo é que não temos total poder de direcionar os sentimentos associados a cada evento, mas um esforço consciente pode dar-lhes uma impronta que lhe atribuímos.
Como a velocidade nos afeta
Visto o mecanismo pelo qual os eventos externos influenciam a nossa mente e o nosso comportamento, consideremos agora a influência específica da velocidade.
Quando falamos de velocidade, não estamos nos referindo somente a um deslocamento rápido ou lento, mas incluímos todos os tipos de eventos, ocorridos em tempo diminuído. Note-se que a ideia está mais ligada ao tempo e à pressa que um evento leva desde que começa até seu término. Se esse tempo for mais rápido que o “normal”, a nossa razão consciente não terá tempo de processar o evento, registrando-o subconscientemente, como que “sem filtros”. Maior dificuldade de “digestão” terá nossa mente se houver uma sequência de eventos rápidos. Ou seja, acúmulo rápido de informação resulta em registros subconscientes, não digeridos, não analisados, sem conclusão.
Nestes casos, os eventos registrados poderão nos influenciar negativamente toda vez que a memória os acessar direta ou indiretamente, pois todos os eventos memorizados estão interligados.
Atualmente, uma das fontes mais comuns de eventos sequenciais rápidos são a televisão e as redes sociais. Na TV, principalmente as propagandas, que acontecem em tempo super reduzido, com imagens sequenciais rapidíssimas, conteúdos sobrecarregados de informações, seja pelo áudio, seja pelo visual. Na internet, a tendência ao rápido se nota facilmente pelo “sucesso” dos vídeos curtos, numa sequência quase infinita de eventos. É o caso do TikTok, Kwai, Reel (do Facebook) e Short (do Youtube).
O mal da velocidade
Poucos anos atrás, quando não havia ainda internet, as informações nos chegavam de forma mais natural. Liam-se jornais e revistas. Recebiam-se cartas. Tudo era mais lento, mais adequado ao processo mental humano.
Hoje, quando queremos uma informação, basta “perguntar ao Google”, e teremos diversas “respostas” em milésimos de segundos. As coisas ficaram mais rápidas e fáceis. No que podem nos prejudicar essa velocidade e essa facilidade?
Quanto à velocidade: além do problema de falta de tempo de assimilação já descrito acima, temos a criação, em nossa memória, de um padrão de comportamento segundo o qual tudo tem que ser para já. Ora, esta ideia é totalmente oposta ao comportamento paciente, equilibrado, resiliente, temperante e solene da virtude e da santidade. Deus é solene, cerimonioso! Assim se manifesta para nós sua grandeza infinita, de pompa e majestade. Agitado, veloz e impaciente é o demônio.
O caminhar do santo é temperante e calmo como Deus. A pressa não é apenas inimiga da perfeição, mas da santidade e do próprio Deus.
Daí a atitude tão comum em nossos dias, de se xingar, se irritar e se enfurecer quando uma coisa não acontece ”na hora”, imediatamente, instantaneamente. E quanto isso atrapalha nossa relação com Deus, que só se comunica conosco na calma, no silêncio, na paz, sem pressa e, tantas vezes, com grandes delongas...
Quanto à facilidade: na realidade, tudo nesta vida é difícil, é penoso, é árduo, exige sacrifício e dedicação. Por isso, a Igreja usa a expressão Vale de Lágrimas para se referir à vida na terra. E quão idiotas são aquelas teorias de que é possível alcançar a felicidade nesta terra! Romantismo ilusório e enganoso!
Na terra há momentos de felicidade, de paz e de tranquilidade, mas reservada principalmente àqueles que dão duro para se santificar e se assemelhar mais a Deus, a cada instante. Ora, a ideia do fácil está ligada à noção de felicidade, de comodidade, de prazer. E isto desprepara o ser humano para a luta, para o empreendimento, para a dedicação, para a ação, para o trabalho duro, para o combate espiritual que todos devemos travar contra nossos defeitos e rumo à total união com Deus.
Conclusão
Do que foi dito se conclui que a velocidade (acima do normal, antinatural) exerce sobre o homem uma influência negativa, tanto incutindo-lhe memórias prejudiciais, quanto provocando-lhe comportamentos agitados e impacientes, que, aliás, estão na causa de tantas doenças psicológicas, como ansiedade, depressão, pânico, insônia, etc.
A velocidade é contrária ao comportamento santo e ao proceder solene do próprio Deus; pelo contrário, é característica do proceder agitado do demônio e da tentação.
Para encerrar, observemos os fenômenos naturais do universo. Mesmo que aconteçam em alta velocidade, como a descarga elétrica de um raio, notemos que estes eventos são raros aos nossos olhos. O próprio raio, só parece tão rápido quando visto de muito perto. Ver um raio de longe não dá a impressão da velocidade real que ele tem. Assim também é com o movimento dos astros e planetas. Sol, lua, terra, estrelas: tudo se movimenta quase imperceptivelmente aos nossos olhos, embora possa ser grande sua velocidade real.
Ao acendermos uma lâmpada, estamos em contato com a maior velocidade do universo, a luz. Entretanto, mesmo esse evento sendo mais rápido que o acender de uma fogueira, ou o nascer do sol, ele não exige de nossa mente um processo complexo e maléfico de memorização. Porque a luz é estática, dando a impressão de não ter movimento nem velocidade. E assim é tudo o que existe na natureza, criado por Deus em solene sincronia com nossos sentidos, feito para não nos prejudicar.
O homem é que altera a natureza e acelera tudo. Por quê? Para nos afastarmos de Deus e nos assemelharmos mais ao demônio?