A geração do pífio

Alexandre Augusto Tavares, 2/1/2016 - Revista Por Ali, nº 5

· Crônica ·

Um celular de má qualidade sendo descartado

O Papa Leão XIII tem uma linda reflexão sobre a Idade Média, mostrando que naquela época a Cristandade ocidental viveu um auge de fé, no qual grande parte da sociedade se inspirava no Evangelho para criar suas leis e costumes. Ali surgiram os hospitais, as universidades, as grandes obras de caridade; ali se construíram catedrais maravilhosas, castelos e palácios magníficos; ali a filosofia do Evangelho pervadiu todas as gamas da sociedade, desde os reis e imperadores até o mais humilde dos camponeses, gerando uma harmonia orgânica entre clero, nobreza e povo.

O consequente desejo de perfeição evangélica moldou a arquitetura, a música, a indumentária, a literatura e todas as atividades humanas, elevando-as a um alto grau de sublimidade.

Se aquele espírito de fé sobrevivesse ao declínio posterior, teríamos certamente, na Terra, a implantação do Reino de Deus. Mas, como se sabe, o arrefecimento da fé provocado pela Revolução protestante e, ulteriormente, o obscurecimento da razão decorrente da filosofia humanista foram passos importantes no processo de decadência que resultou na impiedade e no caos que hoje vivemos.

Com efeito, o atual abandono do desejo de perfeição se reflete de forma assustadora em todos os campos da atividade humana. Por isso, vivemos a era da imperfeição, do desleixo, do mal-feito, do “xing-ling”.

A expressão, criada e popularizada no Brasil pelo início do terceiro milênio, se referia depreciativamente às imitações baratas de aparelhos eletrônicos que a China fabricava. Em chinês, a palavra “xing” significa “estrela”, e “ling”, “zero”. Um produto “zero estrela” significa de baixa qualidade.

A aceitação do padrão “pífio” vai bem além da capacidade aquisitiva do comprador. Ela chega a atender grandemente até os ricos, porque a exigência da perfeição não é mais, no geral, uma prioridade.

Nos mercados encontram-se, lado a lado, produtos bons e produtos de qualidade inaceitável, revestidos de rótulos semelhantes.

Não é raro hoje em dia, produtos até considerados de boa marca, decepcionarem seus compradores. Quase tudo tem uma versão “pirata”; nem os remédios estão livres das fraudes, mesmo pondo em grave risco a saúde de seus usuários.

Uma salsicha que na vitrine pode chamar a atenção pela boa aparência, no prato se mostra amarga; o leite vem com produtos adicionais para aumentar a quantidade; no hortifrúti há agrotóxicos em abundância.

Compra-se uma ferramenta para trabalhos de pedreiro, e nos primeiros minutos de uso, ela se desfaz; substitui-se a tinta da impressora e logo se percebe o resultado catastrófico; adquire-se um pendrive de 16 Gb mas, na realidade, só cabem 2 Gb.

Ao trocar os pneus do carro, o borracheiro coloca desajeitadamente a porca e espana o prisioneiro (encaixe). No posto, o combustível vem adulterado ou em menor quantidade.

Esta mesma tendência da baixa qualidade se faz notar em todo tipo de serviços, como os de telefonia, TV a cabo, internet, atendimento ao público... “Para que asfaltar uma rua com material de boa qualidade, se um pífio vai ser suficiente para agradar o povo por alguns meses?”

Por que grande parte dos produtos oferecidos pelo mercado não cumprem sua função, não atende sequer minimamente o objetivo proposto? Porque, no geral, a excelência da qualidade não é mais um padrão visado pela humanidade: vivemos na geração do chinfrim, do fake, do “xing-ling”, do pífio...

Não é de se espantar. Pois onde Cristo não é o centro e o modelo, imperam padrões caóticos, falsos e desleixados.

Resta-nos, entretanto, uma esperança: o mundo não acabará antes que o Reino de Deus seja estabelecido em todo o orbe. O fervor da fé que o Ocidente viveu na Idade Média deverá, em algum momento, voltar com ainda mais força e chegar a um auge surpreendente. Que venha a nós o vosso Reino, Senhor dos corações, e que seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu!