A fé que move montanhas
Alexandre Augusto Tavares, 2/2/2016 - Revista Por Ali, nº 6
· Espiritualidade ·
“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mc 15,34; Mt 27,46) Estas palavras do Salmista, reproduzidas por Jesus pouco antes de expirar na Cruz, revelam um momento misterioso e paradoxal no qual o próprio Filho de Deus se sentiu como que abandonado pelo Pai.
Sabemos que Cristo não precisava ter fé, porque tudo o que a fé nos revela era, para Ele, visão, em consequência da união hipostática de sua natureza humana com a divina. Ele via tudo por ser Deus.
Mas neste instante de abandono na Cruz, foi como se sua visão divina se interrompesse voluntária e momentaneamente, foi como se Ele experimentasse uma provação contra a fé.
A tentação contra a fé é a pior de todas, porque abala todo o nosso ser e põe em prova a própria razão da nossa existência. E foi para reparar os nossos pecados que Cristo se permitiu esta privação, semelhante a uma “pena de dano”.
Pena de dano é o principal tormento do Inferno, pelo qual o condenado se sente eternamente rejeitado e afastado por Deus, em razão de seus pecados e de seu desamor ao Criador.
E não é raro, entre os seguidores de Jesus, passarem, durante sua caminhada por este Vale de Lágrimas, por semelhante tentação contra a fé.
Em suas pregações, o Messias mencionou diversas vezes a fé como sendo um pilar do cristianismo, e uma virtude que agrada profundamente a Deus.
Pedro, que, após caminhar sobre as águas, duvidou e começou a afundar, foi advertido: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14,31) Por outro lado, foi grande o elogio que Jesus teceu ao centurião: “Não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel.” (Mt 8,10) E, em outra ocasião, disse: “Se tiverdes fé, como um grão de mostarda, direis a esta montanha: Transporta-te daqui para lá, e ela irá; e nada vos será impossível.” (Mt 17,20)
A problemática da fé é bem mais comum e importante do que se imagina, sobretudo em nossos dias, em que somente perseveram no bem aqueles que possuem uma fé vigorosa. Até poderíamos dizer que falta de fé é o pior mal de nossos tempos.
São Paulo escreveu que “a fé sem obras é estéril” (Tg 2,20). Ou seja, é possível “ter” fé, sem que ela seja eficaz e autêntica. Há, portanto, dois tipos de fé, uma estéril e outra fecunda; uma morta e outra viva.
Há na Igreja uma quantidade enorme de gente que acredita no Deus Trino, crê na presença Real de Jesus na Eucaristia e professa todos os artigos do Creio, mas que não vive a sua fé... São pessoas de “fé apoucada” que, como Pedro, afundam ao menor agito das águas. Sabem que Jesus está realmente presente no sacrário, mas quando entram na igreja para a missa, nem sequer O cumprimentam; durante a missa, quase todo o tempo distraídas. Durante o dia, passam inúmeras vezes perto da igreja ou na frente dela, mas não param para conversar um pouco com Jesus, mesmo “acreditando” que Ele está ali.
Mesmo crendo que fomos criados para Deus e que Ele é o nosso destino final após a morte, vivem sem Deus. Passam horas e horas diante de uma televisão ou vendo futilidades na internet... mas são incapazes de dedicar uma horinha de seu dia à oração, à leitura sacra e ao convívio com o Senhor. Isto é fé? Isto é “amar a Deus sobre todas as coisas”? Não! Isto é amar todas as coisas acima de Deus.
O que se pode, pois, esperar do juízo de Deus para uma pessoa destas quando morrer? Foi por isso que Nossa Senhora disse em Fátima que muita gente tem ido para o Inferno.
Ninguém chega ao Céu sem ter amado a Deus plenamente, sem ter se sacrificado por amor a Ele, sem ter morrido para os deleites da Terra! O Céu é dos que têm grande fé, é dos “violentos” contra si e contra o pecado! (cf. Mt 11,12)