A corrida pela felicidade

Alexandre Augusto Tavares, 22/1/2024

· Reflexão ·

A corrida pela felicidade

O espírito repleto de sabedoria da Igreja Católica nos ensina que devemos viver animados, alegrando-nos no Senhor, pois Deus é pura e eterna felicidade e nos destinou no Céu a participação em sua própria glória.

Entretanto, a felicidade plena só pode ser experimentada na eternidade, depois desta vida terrena. Enquanto estivermos aqui, o tempo é de batalha árdua, principalmente contra nossos defeitos e nossas más inclinações, que herdamos de Adão, originadas por sua desobediência.

Ora, existe uma corrente de pensamento em nossos dias que insiste que a felicidade pode e deve ser alcançada nesta vida, não obstante isto ser impossível neste Vale de Lágrimas. A ideia da felicidade terrena é romântica, ilusória e causa enormes dificuldades mentais em quem pauta sua vida neste desejo irreal de prazer e comodidade mundana.

Jesus prometeu “o cêntuplo [de felicidade] nesta terra” para quem abandonar tudo e segui-Lo (cf. Mc 10,29-30). Mas condicionou essa benesse ao desapego, ao viver, como dizia São Paulo, “como se nada tivéssemos” (1Cor 7,29-32), desprendidos de familiares, de comodidades, de vícios e, principalmente, do prazer ilusório e efêmero do pecado.

Consideremos, então, que a realidade da vida perfeita ─ como Deus a quer ─ consiste em fugir do pecado e dos prazeres mundanos, buscando unicamente “o Reino de Deus [em nosso coração] e sua justiça”, justiça esta que consiste na santidade. E não há limite para essa santificação, pois Jesus nos deu como meta sermos “perfeitos como o Pai celeste”. Aí teremos, como recompensa, a felicidade plena após a morte, e ainda ─ mesmo num vale de lágrimas ─, cem vezes mais o bem que fizermos. Isto, sim, equivale ao máximo de felicidade que se possa ter na terra.

Abandonemos, então, a ideia romântica da felicidade terrena, tão planteada em nossos dias! Teorias de prosperidade e leis de atração não passam de enganação.

Segundo esses conceitos mundanos, pagãos e prejudicialmente equivocados, somos capazes de conceber, moldar, construir e providenciar (como se deuses fôssemos) uma “vida perfeita”:

próspera e saudável;

sem dores nem incômodos;

num relacionamento harmônicos com todos;

encontrando o amor da nossa vida, nossa cara-metade, vivendo felizes para sempre, como num conto de fadas;

num mundo ideal;

num lugar paradisíaco;

onde vivamos cheios de paz interior;

sem ratos, baratas ou pernilongos.

Sim, é ridículo... Mas tem gente que acredita piamente nisto, e emprega todos os seus esforços para atingir este estado “místico” de surrealidade. Até o momento em que morrem, apresentam-se diante de Deus, encontram-se com a verdade, aquela verdade que em vida deturparam e distorceram, julgando-a relativa, maleável, moldável ao bel-prazer de seus loucos devaneios.

Não há quem busque essa falsa felicidade e que dela consiga algo de bom; pelo contrário, não há quem renuncie a essa falsidade para fazer a vontade de Deus, e que não goze nesta terra a felicidade que a bondade divina nos reserva.

Na Ladainha Lauretana encontra-se esta linda invocação a Maria: causa nostra lætítia (causa da nossa alegria). “Gemendo e chorando nesse vale de lágrimas”, roguemos confiantes à Mãe da santa Felicidade, que essa real alegria dispensada aos verdadeiros filhos de Deus adoce e amenize as amarguras da nossa vida neste mundo, preparando-nos para a felicidade total e sem fim que nos está reservada no Paraíso celeste!