A Providência divina
Alexandre Augusto Tavares, 9/3/2024
· Espiritualidade ·
Ao dar-nos a vida, Deus tem como única intenção compartilhar conosco sua felicidade eterna. Mas como condição desta dádiva, precisa nos criar com vontade livre e “independente” d’Ele. E, por isso, o prêmio da glória eterna não nos pode ser concedido (após a morte) sem provarmos que realmente o queremos.
O tempo de nossa existência nesta vida é, pois, a grande e única oportunidade que temos para essa conquista.
Entretanto, a liberdade da vontade não nos dá os recursos para demonstrarmos, por nossa própria força, nosso amor e nossa fidelidade a Deus. Com efeito, é somente com a ajuda de Deus ─ à qual chamados Graça ─ que conseguimos optar pelo Céu e renunciar às enganações do mal.
Pois para nos mantermos no caminho do Céu necessitamos de habilidades divinas, inexistentes em nossa natureza.
Somos, contudo, configurados para receber essa ajuda, que nos permite começar, já aqui na terra, a união de glória que teremos com Deus no Céu.
O próprio fato de dependermos da Graça para sermos bons já indica o quanto Deus se empenha em nossa salvação, ao disponibilizar-nos sempre sua divina ajuda.
E como se isso não bastasse, Deus não é indiferente à nossa luta, não despreza os nossos esforços, não deixa de acompanhar intimamente cada minúsculo movimento de nossas intenções, vontades e decisões.
Ademais, sua infinita Bondade põe em nosso caminho inúmeras oportunidades para vencermos o nosso amor-próprio e aderirmos radicalmente a Ele. É a este desvelo amoroso que chamamos Providência Divina.
Mesmo sendo Deus tão discreto ao dispensar-nos sua Graça, é possível perceber a ação de sua Providência, se de fato o quisermos.
Nossa grande dificuldade é que tendemos a desprezar a ação de Deus, a não depender d’Ele, a querer realizar nossa própria vontade, rejeitando as oportunidades que Ele nos dá. Por egoísmo e falta de amor...
O resultado dessa rebeldia é uma espécie de cegueira, que nos mantém num mundo irreal, todo desenhado pelas ilusões do nosso egocentrismo.
Sair dessa ilusão e olhar de frente para a realidade é um trabalho árduo, mas um esforço ridiculamente insignificante, se consideramos que está em jogo nossa salvação ou perdição eterna.
Trata-se, pois, de entrar nesse esquema de reconhecer as ocasiões providenciais para progredirmos no amor e entrega a Deus.
Isto inclui olharmos para os nossos defeitos, nossos pontos fracos, nossas vulnerabilidades concessivas ao pecado, nossos vícios, nossas ilusões, desejos descolados da realidade, e todas as atitudes que nos afastam de Deus.
Eis, aliás, o principal objetivo da oração: enxergar com precisão nossas lacunas, e preenchê-las com a Graça, sem medo de nos sentirmos miseráveis, incapazes, sujos e até perversos. Pois é mesmo assim que somos, essa é a nossa realidade. Só Deus é bom, só d’Ele provém todo o bem.