A Paixão de Maria
Alexandre Augusto Tavares, 2/2/2016 - Revista Por Ali, nº 6
· História ·
Um dos cantos gregorianos mais bonitos dirigidos à Virgem Maria começa com a frase STABAT MATER DOLOROSA IUXTA CRUCEM LACRIMOSA ─ Estava de pé junto à Cruz, chorando e cheia de dor.
Para respeitar os costumes da época, Maria não podia acompanhar Jesus a todos os lugares onde Ele exerceu sua missão pública. Mas onde possível, ali estava Ela, sempre solícita e generosa.
Principalmente esteve Maria presente nos momentos terríveis da Paixão de seu Filho, “de pé”.
Ninguém como Ela teve uma noção tão clara do que foram os tormentos de Jesus. Somente Maria pôde partilhar inteiramente as dores de seu Filho, e consentir nelas, para a Redenção do gênero humano. Por isso, Ela é chamada CO-REDENTORA.
Até poderíamos dizer que Maria “iniciou” a obra da Salvação,aceitando a Encarnação e sofrendo pela nosso resgate, antes mesmo de Jesus nascer: acompanhar as angústias de José por causa de sua gravidez misteriosa, visitar Isabel mediante uma penosa viagem, e suportar as apreensões que sobrevieram por ocasião do Natal de Jesus, todos esses foram grandes padecimentos que Maria ofereceu a Deus como Co-Redentora.
Dias depois do nascimento do Menino-Deus, Simeão haveria de profetizar o futuro doloroso de Maria: Uma espada de dor transpassará a tua alma. Este Menino será sinal de divisão em Israel. (cf. Lc 2,34-35)
Durante os quase trinta anos que precederam a vida pública de Jesus, Mãe e Filho devem ter conversado algumas vezes sobre coisas que lhes esperavam futuramente.
Uma das revelações que certamente Jesus fez a Maria foi a futura instituição da Eucaristia. E Maria deveria ter ficado muito ansiosa por este momento em que Ela voltaria a levar dentro de si Aquele que n'Ela morou durante nove meses. Isto explica a solicitude de Maria quando faltou vinho nas bodas de Caná: parecia-lhe uma ótima oportunidade para a instituição da Eucaristia.
E então se entende melhor a resposta de Jesus, quando Maria lhe avisou sobre a falta da bebida: “Ainda não chegou a minha hora.” (Jo 2,4) De fato, aquela era uma das primeiras ceias do ministério de Jesus. Maria deveria ainda esperar três anos para, somente na última ceia, receber a Comunhão. Quando por fim chegou este momento tão esperado, acredita-se que, ao recebê-lo eucaristicamente, as espécies sagradas permaneceram em Maria para sempre. E aqui retomamos o assunto da Paixão de Maria.
A Eucaristia é Jesus tal qual Ele se encontra “no momento”. Nós O recebemos “glorioso”, porque assim ele está agora no Céu. Mas, na Santa Ceia, seu Corpo era padecente: e assim foi que Maria O recebeu.
Por isso também, durante as próximas horas, a Paixão de Cristo se operaria eucaristicamente na hóstia que Maria comungou: em seu interior, Jesus foi preso, julgado, condenado, açoitado, carregou a Cruz, onde foi pregado e deu seu último suspiro.
Foi assim que Maria, assim como quando levava o Menino em seu ventre no tempo da gestação, acompanhou misticamente cada passo da Paixão de Jesus, participando num grau inimaginável da nossa Redenção.
Ó Maria, Mãe das Dores, vós que seguistes intimamente a Paixão de vosso Filho, dai-nos a compreensão de que o sofrimento, oferecido a Deus com amor e pureza de intenção, nos torna partícipes da Redenção dos homens e dignos da glória celeste. Vós, a quem Jesus nos deu por Mãe ao pé da Cruz na pessoa de João, uni-nos ao sofrimento apaixonado de Jesus Redentor, para que seguindo-O na dor, também o acompanhemos na Glória! Amém.